Blog do Juca Kfouri

O fuzil de Deus

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

“El tamaño del narcotráfico en México equivale a la magnitud de la corrupción.”*

― Rafael Rodriguez Castaneda, El México narco

A Copa de 1986 seria na Colômbia. Mas no dia 25 de outubro de 1982, o presidente Belisario Betancur disse que era impossível cumprir as exigências da FIFA. Não havia tempo para cumprir as ‘extravagâncias da multinacional FIFA’, segundo palavras do próprio mandatário. Não era questão de terremoto, tufão ou coisa parecida. A questão era financeira mesmo.

Roda daqui e dali, o Brasil na bancarrota se candidata, mas o país estava na lona. Giulite Coutinho sonhando com a revanche de Sarriá em terras tupiniquins. Nada feito. A roleta da FIFA indicou o México como sede – o primeiro país a sediar a Copa do Mundo pela segunda vez.

Logo que o México foi apontado, um país europeu botou as duas mãos na cabeça. Para a Inglaterra, o México era local de péssimas memórias esportivas e culturais. O British Team era considerado inimigo visceral dos mexicanos, o equivalente gringo dos campos de futebol. A seleção comandada por Alf Ramsey se especializara na Copa de 70 em menosprezar o caráter e a sensibilidade do povo asteca, fato simbolizado na água mineral escocesa levada no avião para a Copa.

A água mexicana seria impura. A comida era pré histórica. O país era a ante sala do inferno. Ainda mais nos meses de junho e julho.

O Brasil também levou comida para o México, por via das dúvidas, porém, nas entrevistas, insistia que o que era bom para os mexicanos era bom para os brasileiros.

Os mexicanos que já amavam Pelé e Zizinho**, depois de 70 passaram a ter no Brasil sua segunda pátria.

Para ser justo, um dos atletas ingleses quis quebrar o gelo entre as duas nações. O arqueiro Gordon Banks decidiu provar dos quitutes mexicanos, mas se deu mal. Caiu de cama e não atuou contra a Alemanha, quando seu reserva, o nanico Peter Phillip Bonetti, entregou a rapadura.

A Copa do Mundo de 1986 foi, como até a Rainha já sabe, a Copa de Maradona. Com atuações maravilhosas e cortadas de voleibol divinas, o Pibe detonou os adversários argentinos com a mão de Deus e conquistou o bicampeonato mundial. Para ainda maior abestalhamento dos ingleses, o gol de mão de Maradona foi contra a Inglaterra.

Uma imagem, entretanto, passou despercebida do mundo do futebol, aparecendo esta semana no Twitter. O México que já era terra da corrupção e do narcotráfico achou por bem proteger com unhas, dentes e fuzis as seleções na Copa. Em especial a seleção inglesa, sabe-se lá o que podia acontecer, né?

A Itália de 34 era segura como um bunker. A Argentina de 78 era a pátria das brigadas antiterror. O México de 86 trouxe guarda costas armados de fuzis dentro do ônibus da delegação inglesa. A foto do Twitter mostra o rapaz com sua arma protegendo o capitão inglês Bryan Robson e o arqueiro Pete Shilton.

A imagem que parece de uma violência ímpar ao primeiro olhar, não resiste aos que conhecem o caráter mexicano mais intimamente, como podemos observar no livro clássico e esquecido do Mestre Érico Veríssimo,‘MEXICO’, de 1956.

No livro, tão indispensável quanto os escritos de Rafael Castaneda para quem deseja conhecer um pouco mais do caráter mexicano, Érico descreve a paixão asteca pelas armas de fogo. Armas que são amigas fraternas dos mexicanos desde os tempos da colonização.

Resta saber se Bryan e Pete compreenderam que aquele era um fuzil.

Mas era, como diria Maradona, um fuzil de Deus…

*A frase de Castaneda serve como luva também para a Colômbia dos anos 90 e para o Brasil atual…

**Zizinho descreve o amor dos mexicanos por ele na sua autobiografia ZIZINHO – O MESTRE ZIZA, de 1985