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Blog do Juca Kfouri

Conto de Natal: Puskas e Zizinho

Juca Kfouri

24/12/2018 14h00

Por ROBERTO VIEIRA

Puskas estava gordo como Papai Noel e esquecido como Jesus quando não é dia de Natal. Duas mãos na cabeça, copo de cerveja na mesa e um monte de salsichas no prato, o antigo Major Galopante era a própria imagem da desolação. A Pátria jazia assassinada pelos tanques soviéticos, o mundo andava silenciado, pois o apoio norte-americano tinha ficado nas promessas, a carreira de jogador era uma lembrança na gaveta de baixo do guarda roupa depois que a FIFA decidira suspender o atleta durante dois anos como castigo por fugir de Budapeste.

Puskas tinha 31 anos e 20 quilos a mais.

Era o fim. Não jogaria mais pela Hungria mesmo se fosse conduzido ao pelotão de fuzilamento. Não jogaria no Manchester United devastado pelo acidente aéreo pois não falava inglês, apenas a linguagem universal da pelota. Não jogaria na Itália pois os italianos desdenhavam do homem gordo e com bafo de cerveja no olhar… se ainda fosse um bom vinho!

Era noite de Natal. Puskas estava gordo como Papai Noel e esquecido como Jesus quando não é dia de Natal. Duas mãos na cabeça, copo de cerveja na mesa e um monte de salsichas no prato, o antigo Major Galopante era a própria imagem da desolação.

Restava o suicídio, prática a ser imortalizada pelo companheiro de time Sándor Kocsis muitos anos depois. Um salto, um tiro, o gás tal qual Sindelar. Pelo menos a memória seria reverenciada, ou não. Quem se importa com um vice-campeão mundial? Besteira! Puskas ainda gostava de dar uns namoricos e pelo que sabia não havia namorico na eternidade celestial.

Zizinho. Folheando o velho álbum de fotografias, Puskas encontra a imagem do craque brasileiro que ficara seu amigo em janeiro de 1957 no Rio de Janeiro. Os maiores gênios da época foram convidados por uma revista brasileira para a sessão de fotos fazendo embaixadinhas num hotel à beira mar. Um encontro antológico que o tempo esqueceu. Zizinho com a bola de borracha menor que uma laranja fazendo misérias ao lado do menino de Kispest.

Juntos e sorrindo, os maiores injustiçados pelo futebol mundial. Zizinho, vice-campeão de 1950 no Maracanã, vendo o sonho de levantar a Copa do Mundo se esvair em dois contra ataques uruguaios. Zizinho que estava machucado no começo da Copa e retornara para conduzir o país do futebol ao seu lugar de direito. Zizinho que vira o olhar tristonho de Jules Rimet ao perceber que não seria a equipe de Zizinho a erguer o troféu.

Dou outro lado das câmeras, Puskas, o Zizinho de 1954, o mitológico maestro húngaro que assistira capengando a três gols alemães sepultando de vez a justiça no futebol.

A única diferença entre os dois estava no pé com o qual imolavam a pelota. Zizinho destro. Puskas canhoto incorrigível.

Puskas sorriu. Havia esperança. No final das fotos, birinaites nas mãos, solitários na piscina do hotel enquanto a noite carioca chegava, Zizinho olhou para Puskas e chorou baixinho. Lembrou-se da derrota no Maracanã arriscando um portunhol. Falou que pensara em se matar, em sumir pelo mundo afora, em deixar de ser, mas decidira lutar.

Ante o olhar espantado do húngaro que entendia o espanhol apenas por mímica, Zizinho se reconheceu num semelhante, em talento e dor. E ambos terminaram a noite abraçados como velhos amigos.

Se Zizinho sobrevivera, seria covardia desistir. O velho amigo se tornara campeão paulista pelas mãos do também húngaro Bela Guttman. Quem sabe ainda havia esperança para o craque barrigudo de 31 anos, por que não?

Puskas esvazia o copo de cerveja, joga fora consternado as salsichas no lixo e decide enfrentar os fantasmas de Berna, Budapeste e Moscou.

Puskas estava gordo como Papai Noel e esquecido como Jesus quando não é dia de Natal. Duas mãos na cabeça, copo de cerveja na mesa e um monte de salsichas no prato, o antigo Major Galopante era a própria imagem da desolação.

O telefone toca. Puskas arregala os olhos e tenta entender corretamente a ligação.

O Real Madrid deseja o craque!

Mas como? Eles já possuem Di Stefano! Será que eles sabem que Puskas virou um Papai Noel?

Tanto faz! Eles querem o mito! Se fizer alguma coisa a mais é lucro!

Puskas olha a foto de Zizinho e responde sim.

Um sim que mudaria para sempre a história do futebol mundial…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/