Blog do Juca Kfouri

Caneta

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Eles jogavam mesmo é pela cerveja depois.

Já com certa idade e certo peso, hora e meia, duas horas sob o sol valiam a pena. Grades de cerveja gelando, carne pra assar e a sombra do barraco ao lado do campo eram a recompensa desejada e merecida.

Alguns se banhavam com a mangueira antes de beber, outros iam suados. A mesa de madeira, as cadeiras, o fogo estalando, os copos, as tampinhas lançadas pelo abridor.

Risos, brindes, suspiros.

Aí é que o jogo começava.

Cada um tinha sua versão da pelada, dos lances que disputara, das jogadas que fizera. “Viu a bola que meti no meio da zaga?” Goles. “E o meu golaço? No ângulo!” Mais uma. “Se não fosse a trave!” Saúde! “E aquela hora em que eu driblei cinco?” Tim-tim!

Um não ouvia o outro. Não importava.

Juntos, os lances descritos não formavam um jogo coerente, tantas as maravilhas que todos teriam realizado. Não importava.

“E a caneta?”

Era um novato. Tinha só umas três peladas na turma, mas já se familiarizara e era dos mais falantes.

Mas não sabia todas as regras.

Todos olharam para ele.

“Que caneta?”

“A caneta que eu dei na ponta esquerda! De rolinho. O cara entrou de primeira e eu só empurrei. Caiu de bunda no chão, coitado!”

O ambiente pesou.

“Em quem você deu a caneta?” As vozes, duras, uníssonas, o encurralaram.

“Em quem? Como assim?”

“Sim, em quem?”

Ele sentiu o clima.

“Não sei, não me lembro.”

O que assava o churrasco fez o movimento em leque com o espeto:

“Alguém aqui lembra de ter tomado uma caneta?”

As cabeças negaram sincronizadas.

“Ainda mais de rolinho?”

Mudos e sérios: não.

“Alguém viu alguém tomar caneta?”

Hã-Hã.

“De rolinho?”

O rapaz percebeu:

“Calma, pessoal, eu posso ter me enganado.”

Aguardavam.

“É. Acho que eu pensei em fazer isso uma hora em que estava com a bola ali na esquerda mas acabei desistindo.”

“Então não teve caneta nenhuma?”

“Nenhuma, nenhuma.”

“Rolinho?”

“O quê? Nunca! Imagina! Eu só pensei alto. Me confundi.”

Os rostos relaxaram. Voltaram os sons e as vozes. Os relatos. O estalo da carne. O borbulhar da cerveja nos copos. E os chutes, os gols, os passes, as matadas de peito.

E até os dribles.

Só não valia caneta. Ali ninguém dava nem tomava caneta. Nem no jogo real nem no que descreviam depois.

Ainda mais de rolinho.

Era o acordo da dignidade, da honra, da lealdade grupal.

Tantos anos e ninguém o descumprira.

O novato ficou um pouco deslocado depois disso. Ainda falou uma coisa ou outra. Comeu um pouco, tomou mais um copo e se levantou.

“Pessoal, valeu. Tenho que ir. A patroa, os meninos, sabem como é.”

“Que isso?” “Já?” “A saideira, toma ao menos a saideira.”

Ele deu o gole, agradeceu.

Já mais distante ouviu o pessoal: “Semana que vem, hein! Sem falta!”.

Ele fez o sinal de tinindo, pegou a bicicleta e se foi.

Nunca mais voltou. Se não podia contar da caneta (“e de rolinho!”) que dera no churrasqueiro, não valia a pena jogar.

“E todo mundo viu”, falou sozinho, alto, na estrada.

“Todo mundo!”.

Era noite já. Distraído, quase caiu num buraco.

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Luiz Guilherme Piva publicou “Eram todos camisa dez” e “A vida pela bola” – ambos pela Editora Iluminuras