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Felipão, Deyverson e reviravoltas da vida

Juca Kfouri

26/11/2018 16h25

POR ANTERO GRECO*
Deyverson tem um parafuso a menos, como se dizia no sagrado Bom Retiro, meu bairro, meu berço, minha escola, minha inspiração. Felipão zanzou aqui e ali, até curtiu exílio na China, depois dos 7 a 1, e fez muito nariz torcer, quando se anunciou o retorno dele para tentar pôr o Palmeiras no rumo. E não é que ambos foram importantes na conquista de mais um título?!
O primeiro por fazer o gol que fechou a conta no Brasileiro de 2018, na vitória por 1 a 0 sobre o Vasco, numa apresentação morna na etapa inicial e mais intensa na final. O segundo por pegar um transatlântico ameaçado de ir à deriva e levá-lo com serenidade ao porto seguro do topo da tabela. Há muitos heróis, em momentos como este, mas ambos resumem como o esporte imita a vida em suas reviravoltas.
Deyverson, uma espécie de cabo Daciolo do futebol, andava escanteado no elenco palestrino, com moral em baixa, com poucos minutos em campo, com imagem de desmiolado e folclórico. Enfim, exemplo de dinheiro jogado fora. Mais maluco do que ele só quem teve o despautério de trazê-lo para jogar numa posição que, em outros tempos, já fora de Mazzola, Vavá, César Maluco, Toninho, Evair e, mais recentemente, Gabriel Jesus.
O retorno de Felipão, então, era atestado de falta de alternativas, retrocesso e necessidade de escudo para esconder erros de planejamento. Estava menos para o arquiteto da Libertadores de 1999 e mais para o treinador que, em 2012, deixou o time inevitavelmente embicado para a Segundona. O clube jogava no lixo as tentativas de modernidade esboçadas nas aventuras com Eduardo Baptista, Alberto Valentim e Roger Machado. Fiasco na certa.
Previsões furadas.
Felipão ajeitou o Palmeiras com uma estratégia simples, mas que os antecessores (e aí se inclua Cuca) não souberam colocar em prática: domou egos na trupe e mostrou que todos eram imprescindíveis. Mais importante, provou que não estava para conversa fiada e deu chances para cada um desfilar qualidades. O rodízio incessante motivou de Prass a Yohan, de Jailson a Lucas Lima, de Luan a Victor Luiz. Não teve carta fora do baralho.
Deyverson entrou nessa dança. Ganhou oportunidades, fez gols e bobagens seguidos. Colecionou jogadas bonitas, coreografias estranhas e cartões amarelos e vermelhos. Ficou suspenso em três frentes. Esteve a ponto de levar um peteleco antes do encerramento da temporada. Porém, encarnou o espírito participativo que o "professor" pedia e disputou cada bola como se fosse a última coisa a fazer na vida.
O prêmio veio na saideira, ao entrar no lugar de Borja, no segundo tempo, e com o gol aos 26 minutos. Gol de vitória, gol de título, gol de história. Gol de redenção. O atacante fio desencapado justificou a insistência do treinador de colocá-lo em campo. Se esteve a ponto de ser escorraçado por besteiras em partidas decisivas, agora caiu nos braços do povo.
Idem com Felipão. Velho, ultrapassado, teimoso, limitado, repetitivo, medroso foram alguns dos adjetivos usados à exaustão para cravar como certo o fracasso na terceira aventura no Palestra. Para quem não o engole e tem convicção de que deveria ficar em casa a cuidar dos netinhos, a confirmação disso tudo foram as eliminações na Copa do Brasil e Libertadores.
Ignorou-se, no entanto, o trabalho persistente, sólido e correto no Brasileiro. Como quem não queria nada, o Palmeiras comeu a distância de Flamengo, São Paulo, Inter, Grêmio, Santos. Sem alarde, subiu na tabela, colecionou vitórias e alguns empates. Quando os concorrentes se deram conta, estava aboletado no primeiro lugar e de lá não saiu mais.
Série de 22 jogos sem perder tem algum valor, pois não? Não é fruto de sorte, vontade "dos deuses do futebol", má qualidade dos demais. Representa, no mínimo, sucesso de uma ideia – e a ideia era chegar a um título. Para tal tarefa, chamaram Felipão – que entregou, à maneira dele, o que se esperava. Não há como tirar-lhe o mérito. 
Como há mérito em fazer de Dudu a peça-chave, o motor do time. O moço trocou chiliques por dribles, reclamações por assistências, cartões por gols. Virou o nome do Brasileirão. Algo parecido, embora em menor proporção, com Felipe Melo; com Felipão, ele jogou mais e bateu menos. 
O Palmeiras pode melhorar? Claro. Pode e deve. Que Felipão, colaboradores e dirigentes se debrucem assim que possível sobre a trajetória do time em 2018, analisem erros, acertos e larguem na frente dos demais para preparar 2019. Para novos voos.
Não, não precisa ser já; a hora é de curtir o prazer de ser o campeão do Brasil. E a torcida pode esgoelar-se de cantar… "Quando surge o alviverde imponente…"
Salve, Palmeiras, multicampeão! 

*Antero Greco dispensa apresentação.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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