Blog do Juca Kfouri

Bilhete premiado

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

 

Cartas eram mensagens formais, complexas, carregadas de sentimentos ou informações que eram trocadas por nossos avós. Quando não dava pra trocar cartas, trocavam-se bilhetes, tinha até presidente especializado em governar por meio de bilhetes. Trocando em miúdos para os miúdos que leem esse texto, cartas eram e-mails e bilhetes eram zaps.


Mas havia também outro tipo de bilhete. Os bilhetes de loteria premiados, bilhetes que eram o sonho de consumo de nove entre dez pessoas neste país. Eram diferentes dos volantes de loteria esportiva. Eram mais parecidos com os bilhetes premiados da loteria americana. Você comprava um bilhete e ficava aguardando o dia do sorteio. Era uma chance em milhões de ser premiado, porém, o sonho do bilhete premiado trazia felicidade durante o tempo que durava o sonho. Diríamos então que o sujeito, ou a sujeita, comprava o bilhete para usufruir o tempo de sonho até o sorteio. Um tempo tão legal e importante numa vida de vazios quanto o prêmio efetivamente sorteado.


Holanda e Alemanha são inimigos discretos desde a II Guerra Mundial. Os alemães imaginaram que os holandeses iriam curtir a invasão de sua terra, mas o povo holandês possuía o orgulho de séculos de liberdade religiosa e de consciência. A invasão nazista deixou o rastro de ódio e intransigência, alguns momentos de colaboracionismo e o inesquecível relato de uma menina alemã chamada Anne Frank. 


Anne que escreveu seu diário no esconderijo holandês.


Ontem, durante mais um memorável encontro entre holandeses e alemães no futebol, o túnel do tempo decidiu a última vaga do Grupo Um da Liga das Nações, dada como favas contadas para França ou Alemanha.


A Holanda reviveu seus dias de Laranja Mecânica e entrou em campo em Gelsenkirchen, quase fronteira com a Holanda, precisando do empate para se classificar às semifinais. A Laranja foi pra cima da Alemanha e tomou dois gols no primeiro tempo. Parecia o fim do sonho holandês e a Alemanha já fazia a festa comemorando os cem jogos de Thomas Muller. 


Mas a Holanda tinha um trunfo nos pés: o bilhete premiado. Aos 39 minutos do segundo tempo, Promes acertou as redes de Neuer deixando o placar com cara de Copa de 78. Nesse instante, o tal bilhete cai nas mãos do zagueiro Virgil Van Dick, entregue por Dwight Lodeweges, auxiliar do técnico Ronald Koeman. 


Dick leu.


Aos 45 minutos do segundo tempo o cruzamento alcança Van Dick na entrada da pequena área e o zagueiro com a habilidade de Van Basten – ou seria Cruyff, manda de sem pulo para as redes alemães. 


Festa imensa da torcida holandesa. 


Rosto sério de Low.


Jornalistas procurando o tal bilhete pelo gramado de Gelsenkirchen. 


O que será que tinha escrito naquele bilhete?


Finalmente, a mídia acaba encontrando o bilhete, amassado e deixado como lembrança das vitórias nos tempos de nossos avós. 


O bilhete dizia simplesmente:


‘Virgil, vai pra frente!’


E lá se foi Virgil Van Dijk, atrás do sonho de um bilhete premiado.