Os estádios de futebol do Brasil, entre a subserviência e o lirismo
POR ANTONIO CARLOS SALLES*
Os nomes dos cerca de 800 estádios de futebol no Brasil, segundo dados da CBF, variam de sofisticados a populares, de criativos a bizarros.
Há homenagens sinceras, que são poucas, diante daquelas onde transbordam puxa-saquismo e oportunismo.
Há nomes que são pura poesia.
Quando rola a bola "torrrcida brasileiiira" (já há o estádio Fiori Gigliotti ?),
o jogo pode ser no Caneleira (Santos), no Bambu (ES), Castanheira ou Eucaliptos (RS).
Nas vilas icônicas, como Vila Euclides e Vila Belmiro (SP), nas ruas e avenidas imortalizadas por seus clubes, como Rua Javari (Juventus, Moóca), Rua Bariri (Olaria, RJ), Teixeira de Castro (Bonsucesso, RJ), Curuzu (Paysandu, PA) e Vila Capanema (Paraná Clube, PR).
Há palcos de nomes líricos, quase românticos, como nem sempre o futebol é.
Serra Dourada (GO e BA), Jardim das Rosas, Brinco de Ouro da Princesa e Fonte Luminosa (SP). Jóia da Princesa (BA), Arena das Dunas (RN), Ilha do Retiro (PE), Passo d'Areia, Das Rosas, Dos Plátanos e Das Cabriuvas, esses todos no Rio Grande do Sul.
A nobreza, que investia mas exigia reconhecimento, também está presente.
Comendador Souza, Barão de Serra Negra e Conde Rodolfo Crespi (SP).
O Pacaembu (SP), no elegante e charmoso bairro de mesmo nome, é um estádio épico para os paulistanos. O risco de privatização existe embora tombado pelo Patrimônio Histórico, nada nele possa ser mexido.
Já pensou, transformar o Pacaembu em arena insípida e dar-lhe o nome de Charmão?
No país onde a bola gorjeia a esperança de muitos por uma vida melhor, o futebol é jogado no Estádio dos Pássaros (Arapongas/PR), no Parque do Sabiá (Uberlândia/MG), na Morada dos Quero-Queros (RS).
Onde há pássaros, costuma haver alçapões. Trapichão (Maceió), Barradão (Salvador), Frasqueirão (Natal) e Fumeirão (Arapiraca), são alguns deles.
Aos amantes do futebol noturno, peço que se dirijam ao Madrugadão (MS).
Moça Bonita (RJ), Moreninhas e Morenão (MS), unem futebol e paquera, por que não?
O Amigão (PB), sugere ampla confraternização e ombro amigo aos torcedores derrotados.
Se o time está caindo pelas tabelas, há estádios onde a fé habita, como São Januário (RJ), Frei Epifânio (MA), Madre de Deus (BA), Padre João (PA), Nossa Senhora do Ó (PE) e Capela Nova (MG). Abençoado seja o futebol!
Ameaçados pelo rebaixamento nas Séries A e B, também tem o seu cantinho: Estádio dos Aflitos (PE) e Baixada Melancólica (RS). Em caso de repescagem, o drama aumenta: Boca do Lobo (RS) e Boca do Jacaré (DF).
Para times com uma pegada ambiental, modernos e atuais, sugiro o Passos das Emas (MT) e o Parque do Bacurau (PA). Ou ainda o Macieirão (SC), Laranjeiras (RJ) e Estádio dos Vinhedos (RS).
Herança dos tempos em que o Brasil era superlativo no futebol e frágil na democracia, surgiram Marreirão (AC), Batistão (SE), Magabeirão (PB) e Albertão (PI). Mundão do Arruda (PE), Coliseu e Gigante da Boa Vista/Castelão (CE). Carneirão (PE), Magueirão (PA) e Mineirão (MG). Engenhão (RJ), Colosso do Tapajós (PA) e Gigante do Norte (MT), são mais recentes.
O Maranhão, do lendário Nhozinho Santos (de 1950), tem 12 estádios cujos nomes terminam em ão, entre eles Castelão e Cafeteirão.
A julgar pelos novos tempos, não será surpresa se em breve forem reinaugurados estádios com o nome de Capitãozão.
Há aqueles cujos nomes são óbvios, como Maracanã (bairro/RJ), Beira-Rio (Inter/RS, ao lado do rio Guaíba) e Morumbi (bairro/SPFC). Embora este desperte controvérsias de palmeirenses e corinthianos que vêem na localização maior proximidade com o bairro de Vila Sônia.
Os craques, razão de ser dos estádios e suas histórias, estão bem pouco representados, em números infinitamente menores que os políticos.
Perdi a conta dos Getúlio Vargas ou Presidente Vargas, como o tradicional PV, de Fortaleza.
E há raros Mané Garrincha (DF), Romário Faria e Leônidas da Silva (RJ). O estádio Nilton Santos (Botafogo/RJ) antes era João Havelange, um agrado da subserviência política a um ex-atleta e torcedor do Fluminense.
E claro, há o Rei Pelé, em Maceió (AL).
Ainda que exista um movimento para mudar o nome para Rainha Marta, em homenagem a jogadora brasileira Marta, seis vezes a melhor do mundo pela FIFA.
Antonio Carlos Salles é jornalista.
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/