Blog do Juca Kfouri

O triste fim do Democrata F.C.

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

 

Era o ano do Sesquicentenário da Independência, momento de muito futebol na Minicopa e ufanismo com os restos mortais de Dom Pedro I chegando ao Brasil. O fato do navio com os restos mortais de Dom Pedro ser impedido de passear por Recife devido aos assassinatos perpetrados pelas tropas do antigo Imperador em nossas terras no século XIX servia de contraponto ao momento. 


Bandeirinhas nas ruas, camisa da Transamazônica comprada, inocência de criança, fui chamado de supetão na sala do diretor do Colégio Nóbrega. Tomei um susto, pois era mais bem comportado que a cadeira do professor. Entrava e saía calado da sala de aula sob o comando supremo da comandante minha mãe, segunda em comando na minha casa – papai era descrente do feminismo.


Padre Arnes, gaúcho e torcedor do Grêmio, não perdeu muito tempo na pergunta. Soubera que eu era o responsável pela escolha das camisas do time de minha classe e pelo nome da equipe no campeonato do colégio e disparou:


‘Vermelho e Democrata?’


Eu tinha sete anos na época. Pra escolher o nome da equipe fiz uma votação. A maioria queria Cruzeiro, outra parte Internacional, ninguém queria Palmeiras. Na escolha da cor deu vermelho – como podia ter dado azul ou amarela. Era a vontade da maioria, ou do povo, e eu nem mesmo imaginara que isso podia ser errado.


‘Vermelho e Democrata???!!!’


O nome de Democrata era mais estranho, porém, diante da confusão sobre o nome do time, alguém se lembrou daquela equipe estranha de Minas Gerais chamada Democrata. Ninguém sabia mesmo o que era Democrata e tascamos o nome do time mesmo assim. Quem sabe era uma espécie de dinossauro mineiro?


Padre Arnes não gostou da minha decisão de decidir tudo pelo voto – onde será que eu ouvira falar de voto pra decidir alguma coisa? Falei pra ele que tinha lido num livro de história que circulava na escola, literatura subversiva segundo ele, embora eu não entendesse o que significava ‘subversiva’. Devia ser alguma coisa parecida com aquelas revistas suecas que circulavam nas mãos das turmas mais velhas na hora em que o rapaz da limonada aparecia durante os jogos de futebol nas sextas-feiras.


Convencido que eu não era um guerrilheiro mirim, fato incomum para o filho de uma dona de casa e do dono do açougue do bairro, absolutamente apolíticos segundo toda a família jesuíta, o diretor me discorreu sobre o perigo da cor vermelha em nossos tempos de verde e amarelo. O colégio era vigiado pelas forças de segurança, pois também abrigava a Universidade Católica ao lado, território de muitos estudantes que desafiavam a lógica estética do Brasil Grande.


‘Vermelho não pode!’


Fiquei calado. A frase fora proferida com decisão imperial, última palavra da Igreja Apostólica Romana da qual ainda sou simpatizante. Vermelho não podia, mesmo sendo uma das cores sagradas da própria Igreja. Vermelho era o mal.


‘Agora esse nome… Democrata!’


Democracia era um termo muito mal utilizado. A República Democrata da Alemanha era ditadura e se dizia Democrata!


Nesse instante ele abriu os olhos pelo ato falho. Eu não sabia que palavra era aquela: Ditadura. E ele não tinha a menor vontade de explicar, porque ao me explicar teria de falar naquela outra palavra estranha: Voto.


‘Democrata não pode de modo algum!’


Ele ainda falou durante uma hora e depois me dispensou sob a ordem expressa de não dizer nada a ninguém, nem mesmo a meus pais. Segundo ele, agora eu possuía direitos excepcionais para mudar o nome do time e a cor da camisa.


Ao voltar pra minha sala no segundo andar do colégio, a turma me esperava inquieta. Como o aluno comportado tinha sido convocado pra sala do diretor? Qual seria o mistério?


Fui curto e grosso, sem muitas explicações:


‘Turma, agora nosso uniforme será azul e preto!’


Ninguém entendeu nada de nada, e ainda menos quando falei novamente com a língua entre os dentes:

‘Agora somos o Grêmio Brasil!’


Quando ameaçaram um motim, simplesmente usei do poder que me fora atribuído e fim de papo. Se eu tinha o poder do diretor, eu tinha tudo e podia fazer o que me desse na telha sobre aquele assunto.


Na semana seguinte, fui convocado novamente na sala do diretor que me deu os parabéns, mas olhando bem nos meus olhos sapecou outra pergunta, desta vez num tom mais sério ainda:


‘É verdade que você anda lendo Monteiro Lobato?’ 


Naquele instante, descobri que o Poder não tem limites e que a mentira não é sempre um pecado mortal:


‘Não, senhor, prefiro o Zé Carioca e a revista Placar…’