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O futebol e a (inexistente) proposta de Jair Bolsonaro   

Juca Kfouri

17/10/2018 12h56

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

O Programa de Governo do candidato Jair Bolsonaro não trata do futebol. Nenhuma palavra a respeito. 

Aliás, também não apresenta projetos para o esporte em geral. Absolutamente nada. 

Por isso, o propósito desse texto, que se insere em uma série que aborda as iniciativas para o futebol apresentadas pelos principais candidatos à presidência, se esvai. 

Talvez nem devesse ter sido iniciado. Ou melhor: poderia ser apresentado em branco, contendo apenas o título, o vazio do papel (ou da tela) e a assinaturado autor. 

Essas soluções seriam, porém, um desperdício, pois a constatação merece reflexão. 

Governos já se apropriaram do futebol em diversos momentos para afirmar regimes ou suas políticas. 

Num passado que parecia distante, se cantou, com orgulho de ser brasileiro, que eram "Noventa milhões em ação/Pra frente Brasil/ Do meu coração/Todos juntos, vamos/ Pra frente Brasil/Salve a Seleção!". O futebol foi instrumentalizado, naquele momento, portanto, para legitimar o desconexo discurso oficial. 

Anos depois, na vizinha Argentina, a usurpação tevecomo propósito comprovar a supremacia de um sistema autoritário e corrupto. O tiro, no entanto, saiu pela culatra, pois a intensidade dos abusos cometidos maculou a história do País e do seu futebol. Coincidência ou não, de lá para cá, nenhum governo conseguiu resgatar o respeito de que outrora gozava no plano internacional  tampouco a confiança necessária para reunificar a nação. 

Recentemente, o também autoritário governo russo despendeu bilhões de dólares para organizar a copa do mundo e tentar criar, por meio do futebol, a aparência de um país aberto, moderno e democrático. 

Essas farsas poderiam ter estimulado, nas eleições brasileiras em curso, o movimento de apropriação do futebol para fins político-partidários; porém, nem para isso ele (o futebol) vem se prestando, o que revela a gravidade da situação: afinal, a importância que, de fato, tem, não é reconhecida por governos ou candidatos.

Ou seja, para o bem ou para o mal, o futebol estádesacreditado. Ninguém o quer. 

Isso mesmo: nenhum candidato – exceto, talvez, Guilherme Boulos, que trouxe em seu programa uma genuína, porém equivocada proposta organizacional – entendeu que o futebol poderia ser, neste Paísdividido e a caminho do colapso humano, uma legítima via contributiva de integração e de desenvolvimento econômico e social. 

Mesmo o ex-Presidente Lula, pessoa que melhor se relacionou e se comunicou com as massas desde a Proclamação da República, não se convenceu da relevância estrutural do futebol para o povo. Verdade: em texto publicado no Blog do Juca, logo após a derrota da seleção brasileira para a Bélgica, tratou-o como atividade secundária. 

E Jair Bolsonaro, o que pensa sobre o futebol? 

Não me refiro, óbvio, ao time que torce, às escalações desse ou daquele jogador, ou a questões táticas e técnicas; a especulação envolve sua compreensão do papel transformacional que essa modalidade esportiva pode ter na sociedade brasileira. 

Será, aliás, que tem alguma? 

Sinto-me tentado a afirmar, com base em seu programa de governo, que não. 

Mas, como quase tudo que envolve o provável futuro Presidente, a incerteza se sobrepõe à previsibilidade, e a dúvida se impõe à sociedade. Qualquer afirmação não passará, então, de palpite. 

Resta, assim, torcer (e lutar) para o bem do Brasil e do povo brasileiro, para que o combalido esporte não seja empurrado para o precipício, pois, de lá, nem Deus  para quem nele acredita ou quase acredita o resgatará.

 

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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