Blog do Juca Kfouri

Futebol mais cedo

Juca Kfouri

POR RICARDO PORTO*

A notícia mais importante da última semana para o futebol brasileiro escorreu por debaixo dos olhos da mídia, envolvida com eleições, acusações e denúncias vazias. A CBF anunciou que, a partir de 2019, 21h30 será o horário limite para início dos jogos noturnos nas competições nacionais.

Há pelo menos 10, quiçá 15 ou 20 anos, há um clamor generalizado por baixar o horário de início dos jogos noturnos. A alegação do Grupo Globo, principal detentor de direitos na TV aberta e na TV paga, cuja influência na fixação de horários das partidas é decisiva, sempre foi o valor comercial e a audiência do horário nobre da TV. 

Do ponto de vista da empresa, o argumento fazia sentido. A novela das 20h, hoje novela das 21h, é um pacote comercial, líder de audiência há quase 50 anos. Ao redor dessa fórmula vitoriosa  gira a programação nos dias de semana. Toda a grade é construída para elevar a média de audiência ao pico no horário da chamada “Novela 3”. Por isso, tanta resistência. 

Então, o que mudou para quebrar essa “cláusula pétrea”? Por que retirar um bloco e um intervalo da novela toda quarta-feira a partir de 2019? São diversos motivos.

A Conmebol, que há anos reclamava com a CBF e a Globo do horário das 22h, e mesmo das 21h45, também tratou de estabelecer 21h30 como horário limite em suas competições. Afinal, nenhum parceiro na América do Sul praticava o horário, quando as audiências e, consequentemente, a exposição das marcas tende a ser menor. 

Há algum tempo, está no colo do CADE decidir sobre negociações complicadas em torno dos direitos do Campeonato Brasileiro para o próximo triênio.

Alguns clubes, entre eles o poderoso Palmeiras, acenavam com litígios por entender que a Globo queria impor modelo que feria os acordos já assinados por estes 16 clubes com a Turner para a TV paga, com impacto na TV aberta. O movimento da Globo pode ser entendido como um aceno para o acordo.

Em outro quadrante está a presença cada vez mais forte de players internacionais no mercado de direitos de futebol.

Além da Turner, as gigantes Facebook, Google e Amazon começam a morder nacos de um negócio no qual a Globo sempre reinou soberana. Esta semana, o Facebook comemorou acordo com a Conmebol para transmissão ao vivo de jogos da Libertadores em sua plataforma Facebook Watch. Isso não vai parar por aí, é claro.

Podemos imaginar que na decisão há embutido um interesse em cortar custos de produção – segurança, montagem de transmissão, transporte, horas extras da equipe. Negativo. Quinze minutos para cima ou para baixo ainda é pouco. O que mudam são detalhes de logística, sem maior impacto econômico.

Porém, sem impacto imediato em valores, está a percepção de que a Globo faria um gesto nobre ao atender os históricos anseios da comunidade do futebol – organizadores, clubes, patrocinadores, imprensa e torcedores. Embora pouco mais de 10% dos jogos do Campeonato Brasileiro tivessem início às 21h45, a reclamação é histórica. A probabilidade de ter estádios mais cheios às 21h30 é real. Quando a credibilidade do produto e da empresa passam por uma em crise, movimentos semelhantes fazem a diferença.

É bom ter em mente que o futebol da Globo representa o maior pacote comercial da televisão brasileira. Na casa de 1,2 bilhão de reais. Logo, qualquer ajuste tem efeitos importantes na cadeia e não é executado sem análise criteriosa de amplos setores. O futuro da TV aberta e dos formatos de aquisição, gestão e distribuição de direitos esportivos no mundo está passando por uma transformação muito rápida. É neste contexto que o movimento da Globo ganha ainda maior significado.

“Stay tuned” (fique ligado) nos próximos capítulos.

*Ricardo Porto é jornalista.