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Abrem-se novas veias do futebol brasileiro

Juca Kfouri

12/09/2018 10h00

Por Rodrigo R. Monteiro de Castro

A insistência com que se trata, nesta coluna, da crise estrutural do futebol brasileiro é motivada pelos evidentes e recorrentes sinais internos e externos de  deterioração do ambiente.

Não bastasse o desperdício de atividade econômica única, pujante e universal, ainda se joga pelo ralo a possibilidade de sua utilização como instrumento de desenvolvimento social.

No plano interno, algumas (poucas) pessoas ganham, eventualmente muito, com essa situação, e oferecem toda sorte de obstáculos para evitar o surgimento de um novo marco regulatório do futebol.

Aliás, o modelo vigente, construído sobre pilares que deixaram de cumprir função de sustentação, serve, paradoxalmente, para manutenção do status quo.

O dogma maior é o sistema tributário. Não que seja algo simples, pois não é. A passagem do modelo associativo para o de mercado tem consequências relevantes que somente se compensam, enquanto o Projeto da SAF não se tornar lei, pela organização de uma empresa econômica futebolística eficiente e competitiva.

Esses requisitos, porém, deveriam estimular, e não obstaculizar, o processo. A potencialidade, aliás, é comprovada pelo sucesso organizacional do futebol europeu, que superou o mesmo dilema, e se posicionou como o principal – e talvez único – mercado realmente relevante do planeta.

No plano externo, as evidências de que a nova ordem empurra o Brasil para a mais distante periferia são inequívocas.

O Movimento se iniciou com a ruptura com o modelo clientelista e a compreensão de que, além de jogo, o futebol é um negócio global. Daí a concepção e a adoção de mecanismos de financiamento da empresa, que viabilizam inicialmente a importação de jogadores formados e, na sequência, a importação em massa de jogadores em formação.

Esse modelo reforça a desigualdade que se revela nos confrontos entre clubes ou seleções. Esta situação, no entanto, decorre menos da localização geográfica e da instabilidade das moedas ou governos locais, do que da ineficiência sistêmica mantida e defendida pelos donos ocultos do futebol.

O propósito, nos dias atuais, está muito claro: países como o Brasil devem fornecer matéria prima para o desenvolvimento europeu. Nada muito diferente do que se passa desde as invasões e conquistas ibéricas, como ensina Eduardo Galeano: "Os metais arrebatados aos novos domínios coloniais estimularam o desenvolvimento europeu e até se pode dizer que o tornaram possível".

Não bastasse a redução dos times brasileiros a exportadores de matéria prima, pretende-se, ademais, aniquilar o símbolo cambaleante de resistência, uma espécie de Palmares, abalada pelas interferências dos mesmos donos ocultos do futebol: a seleção.

O instrumento é a Liga das Nações da UEFA, que servirá para isolar ainda mais a periferia do centro mundial do futebol, e reduzir as seleções sul-americanas a (indesejadas, porém necessárias) coadjuvantes.

Portanto, o problema passou a ser também da CBF, e não apenas dos clubes. Seus dirigentes têm a oportunidade de impor um novo modelo e reconquistar o prestígio perdido, ou ficarão marcados na história como os algozes do futebol brasileiro.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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