Blog do Juca Kfouri

A vossa vontade

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Franzino, rápido, pés grandes, franja lisa e teimosa sobre os olhos, o craque do bairro. Logo também de outros bairros. Mas era garoto ainda, filho único, não podia jogar sempre, só quando a mãe deixava.

Ajudava-a, viúva, a pegar e entregar as roupas que ela lavava, passava e costurava. E tinha a escola e as lições.

E a missa.

Coroinha, pajem, sempre de camisa branca e short e sapatos pretos, não faltava a nenhuma. Era o orgulho da mãe na igreja. Às vezes ela o olhava ajudando o padre, o cabelo molhado, os olhos distraídos, e suspirava.

E prometeu, numa oração, que ele seria padre.

Ele se espantou. Não queria: seu sonho era jogar futebol, ir para um grande time, já tinha gente o chamando para fazer peneira.

Mas era um chamado divino, ela disse.

Nas últimas peladas antes de ir para o Seminário, jogou mais do que nunca: gols, arrancadas, dribles e chutes que estatelavam bocas e olhos. Ao final, ia para casa sem falar com ninguém. Na escola perguntavam o que estava acontecendo, mas ele não dizia.

Foi se confessar, questionou o padre, e ouviu que era promessa da mãe direto para Deus. Que nada se poderia fazer.

O choro. O abraço. A despedida. O tempo.

A solidão.

Voltou ordenado. Conseguiu a paróquia local, bem ao lado do campinho de areia em que jogara na infância.

A mãe doente, acamada, o recebia quase todo dia e chorava de emoção. Até que faleceu.

Ele rezou no velório, carregou o féretro, chorou no sepultamento.

E voltou a pé, devagar, para a paróquia.

Na janela, à noite, olhando o céu, imaginou Deus comandando a rotação, a translação e os destinos das gentes.

Então viu nas estrelas o desenho de um campo, de um estádio, de bolas e de torcedores. Ouviu os gritos de gol. E teve a revelação: Deus jogava bola no firmamento!

Viu-o claramente correndo, driblando, fazendo gols e suando com os cabelos molhados sobre os olhos, como um garoto magrelo e sozinho num campo de areia.

E viu sua mãe na torcida, feliz com a comemoração de Deus.

Largou ali a batina.

Não era tão moço mais, mas sabia qual era sua vocação.

E qual era o chamado divino.

Hoje não há um campo na cidade em que ele não seja visto, a qualquer hora, em qualquer pelada.

Chutando, driblando, correndo, suando.

Honrando a obra do Criador ao fazer, enfim, o que ele acredita haver de mais sagrado, tanto na Terra quanto no Céu: jogar futebol.

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Luiz Guilherme Piva publicou “A vida pela bola” e “Eram todos camisa dez” – ambos pela Editora Iluminuras