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Histórico

VASCO, 120

Juca Kfouri

21/08/2018 01h15

Por ROBERTO VIEIRA

3 de abril de 1904.

Cândido José de Araújo beijou a medalha de prata.

Ninguém conseguira mais sócios para o Vasco que ele.

Vasco que era das águas.

Cândido que era da África.

Não havia lugar para Cândido no Fluminense ou Flamengo.

O lugar de Cândido era o Vasco da Gama.

26 de junho era aniversário de Cândido?

Lá ia a corriola familiar para o Vasco da Gama.

Porquê naquele mesmo 1904, Cândido seria eleito presidente vascaíno.

O primeiro presidente negro de um clube brasileiro.

Escrever sobre o Vasco é, pois, escrever sobre a luta contra o racismo.

O Vasco que triunfou sobre a pureza racial – troço esquisito no Brasil.

O Vasco que jogava de negro para provocar o adversário.

Negros mares orientais.

Vasco de analfabetos, mulatos, descamisados e bons de bola.

Bons de bola e de remo.

O Vasco surgiu dez anos após a Lei Áurea.

Mas parece que só o Vasco levou a Lei ao pé da letra.

O Brasil de todas as raças de Freyre só surgiu em campo na cruz de malta.

Tinha mistura no Bangu – mas era britânica.

O caldeirão só explodiu no clube dito lusitano.

Claro… o futebol não era território de Cândido.

Muito mais interessado no Albatroz.

Cem anos atrás o time ainda se apresentava de casaca, ou seria jaqueta?

Casaca, casaca, casaca… a turma é mesmo boa!

Eram tempos dos lanches no Filhos do Céu.

Tempos dos pagamentos de bichos por vitória.

Bichos, mesmo!

Bichos que simbolizavam cédulas.

Cinco mil réis um coelho, pá!

Seiscentos e sessenta e cinco contos por S. Januário.

S. Januário que sacudiu o futebol brasileiro.

Futebol que seria muito parecido com uma França branca e trigueira sem o Vasco.

Pois a própria seleção brasileira se queria branca até no uniforme.

Como se o Brasil fosse imaculado.

Como se negro fosse mácula.

Cândido achava graça.

E pra quem imagina que isso tudo é coisa do passado.

Nada como lembrar Gentil Cardoso, técnico de tantos clubes.

Inclusive do Vasco.

Técnico que nunca treinou a seleção brasileira por ser negro.

Como Cândido.

Porque o futebol continua dotado de um cinismo extraordinário.

A negritude é permitida dentro de campo.

Na senzala.

Técnicos devem ser como os senhores da casa grande…

Hoje, cento e vinte anos do Vasco.

Vasco que vestiu até Pelé.

Imaginemos o que seria do Brasil sem o futebol e sem o Vasco.

Um Brasil.

Sem Expresso.

Sem Vitória.

Um Brasil escandinavo…

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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