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Blog do Juca Kfouri

Uma saída ou o horror

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Juca Kfouri

01/08/2018 16h42

Do mesmo modo que há quem não acredite ser justa a prisão de Lula, ou o impeachment de Dilma, existem os que têm em Bolsonaro a figura do salvador da pátria.

A julgar, porém, por quem são uns e outros, a semelhança estaciona aí se a questão é meramente de fé.

Porque na turma do ex-presidente, e líder nas pesquisas eleitorais, estão, entre tantos: Chico Buarque, Gilberto Gil, Fábio Konder Comparato, Noam Chomsky, Slavoj Žižek, Leonardo Padura, Luis Fernando Verissimo, Bernie Sander, Thomas Piketty, Milton Hatoum e Raduan Nassar, para ficar em apenas 11 nomes de primeiro time em qualquer seleção que se faça pelo planeta afora, seja pelo que significam no mundo jurídico, das artes, da política, da economia ou da filosofia.

Gente que não ganhará, ou perderá, um tostão qualquer que seja o resultado eleitoral.

Não há, do outro lado, em segundo lugar nas pesquisas, nada que se compare, a não ser gente que não se importa com a tortura, com a homofobia, o racismo, com estupro, ou com a mais repugnante idiotia, algumas figuras até da mídia — o que demonstra como certos veículos outrora respeitados despencaram em credibilidade e colaboraram para o clima de intolerância que agora, arrependidos?, denunciam como assustador.

Gente que há mais de 500 anos se locupleta ou que, no desespero da crise, se auto-engana com soluções autoritárias.

A questão está em como combater a onda fascistóide que ameaça o país nas eleições de outubro.

E não será revelando as barbaridades que defendem, a desinformação que propagam ou os absurdos históricos que repetem.

Porque diante das campanhas midiáticas que nos trouxeram a quadro tão sombrio, nada cola nos propagandistas do retrocesso civilizatório em nome do combate à corrupção que os alimenta.

Se assim foi nos Estados Unidos, não há por que imaginar situação diferente no Brasil.

Tentar desconstruir as falsidades da extrema-direita tupiniquim sobre a escravidão, ou sobre o combate à mortalidade infantil, será pregar no deserto dos que sempre dirão que não foi bem isso que o truculento candidato quis dizer, até porque ele é uma pessoa doce e equilibrada, tanto que carrega no colo crianças que apenas brincam de bang bang.

O esforço para impedir o segundo mandato, a partir de seu primeiro dia, de alguém legitimamente eleita pelo povo, deu nisso: na morte política de quem disputou com ela e na ascensão do que há de pior em qualquer parte do mundo.

Seria formidável se surgisse uma saída intermediária, mas é óbvio que boa parte do Brasil considerará ilegítima uma eleição sem o favorito, o que inviabilizará a necessária conciliação nacional.

Somente com Lula no pleito, vencedor ou derrotado, sairemos da sinuca de bico em que nos metemos.

E para quem avaliar que entre Lula e Bolsonaro existe um conflito de extremos, sempre será bom lembrar que o hoje encarcerado ex-presidente saiu do governo com 87% de aprovação, o suficiente para, se quisesse, convocar um plebiscito e ser novamente reeleito, ao estilo chavista.

E ele recusou.

Lula é tão extremista como Pelé foi goleiro.

O que não podemos é seguir adiante com o quadro de intolerância vivido hoje em dia.

A ponto de ontem, numa mesma entrevista com Fernando Haddad, um lado chamar jornalista de golpista e outro de petista.

O que prova, cabalmente, que era apenas jornalista.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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