Blog do Juca Kfouri

Mostra revela como escravidão era tratada na publicidade carioca

Juca Kfouri

POR ROGÉRIO DAFLON, no Jornal do Brasil

O Cais do Valongo é considerado o maior porto de pessoas escravizadas das Américas. O lugar tem sido alvo de intensa visitação, sobretudo depois que a Unesco lhe deu o título de patrimônio mundial da humanidade. Pouca gente sabe, porém, que no entorno do cais funcionou um intenso mercado de compra e venda de mão de obra escravizada.

A triste história é relembrada pelo jornalista e pesquisador Rogério Jordão, que, em seu doutorado, minuciou a Região Portuária.

Alguns aparentes pormenores de seu trabalho acadêmico, porém, continuaram martelando em sua mente. Por isso, com a artista visual Beá Meira, ele montou a exposição “Anúncios da escravidão no Valongo”.

A mostra dispõe, no Jardim Suspenso do Valongo, peças publicitárias do início do século 19 de compra, venda e, o mais surpreendente, fuga.

“Gilberto Freyre escreveu um livro (“O Escravo nos Anúncios de Jornais Brasileiros do Século XIX”) sobre o tema. O que fizemos foi pinçar nos jornais de época anúncios específicos do Valongo. Eles revelam aspectos do cotidiano da escravidão no Rio”, afirma Jordão.

As placas com os anúncios sobre pessoas escravizadas

O pesquisador dá exemplos de como a escravidão estava infiltrada no dia a dia do carioca e espalhada por toda a cidade.

Nos anúncios, destaca ele, surgem amas de leite, mulheres para serviços domésticos, pedreiros e os que fugiram. “O que chama a atenção é a linguagem direta dos anúncios que trata os escravos como propriedade do outro, o que, na percepção de hoje, seria de um racismo explicitado. E é isso que choca e leva à reflexão”, acentua.

O pesquisador aponta um dos anúncios que mais o impressionaram: “Quem quiser comprar uma preta com muito bom leite, para criar qualquer menino de estimação, pois he ainda rapariga, muito sadia e bom corpo; quem a quiser comprar pode dirigir-se á rua do Valongo em uma loja de fasendas”, publicado no “Diário do Rio de Janeiro”, em 3 de novembro de 1822.

Mãe e filha leem conteúdo da propaganda da época, na qual a crueldade se expressava nas páginas impressas de jornais do Rio.A exposição vai até o próximo dia 26

Jordão também destaca outro reclame, em que a crueldade dá o tom na busca do proprietário por sua “mercadoria”:

“No dia 4 do corrente, fugiu uma negrinha de nação quilamane (de Moçambique), de idade de 12 anos mais ou menos, chama-se Rita, levou vestido de chita azul de fábrica, tem uma cicatriz na cara…Consta que tem sido vista pelo lado da Gamboa, Vallongo e Saúde, lugar onde foi criada; quem a apanhar ou mesmo souber onde está…receberá alvíssaras (recompensa)”, impresso no “Jornal do Commercio” de 12 de janeiro de 1830. “São anúncios absolutamente comuns à época, o que nos faz pensar sobre um todo imaginário social ao longo de séculos”, diz o pesquisador, sem disfarçar que considera que o racismo no Brasil tem raízes profundas.

O material foi garimpado pelo jornalista  entre 2010 e 2015 em coleções digitalizadas da Biblioteca Nacional.

Alguns desses anúncios constam da tese de doutorado do pesquisador intitulada “Uma descoberta anunciada: lembranças e heranças do Valongo no Rio de Janeiro”, defendida em abril de 2015 no Departamento de Letras da PUC do Rio de Janeiro. “Os anúncios, porém, não saíram da minha cabeça. Senti que eles mereciam uma circulação pública maior”, conta Jordão.

O pesquisador concentrou o trabalho da mostra no Jardim do Valongo, em cujas encostas funcionaram os armazéns de compra e venda do mercado de pessoas escravizadas. Nessa encosta, foi construído um jardim suspenso de feições parisienses, pelo então prefeito Pereira Passos, que baseou sua reforma urbana em estilos arquitetônicos da capital francesa e no apagamento da memória.

O pesquisador lamenta que, a despeito de ter sido sido reformado em 2012, no Projeto Porto Maravilha, “atualmente quem visita o Jardim tem pouca ou nenhuma referência visual sobre o passado escravista no local”. E esse passado foi intenso: “Entre 1790 e 1830, quando o comércio transatlântico passou à ilegalidade, mais de 700 mil africanos, oriundos principalmente dos territórios atuais de Angola e Moçambique, aportaram no Rio, sendo boa parte desses comercializada no Valongo”, afirma Jordão.

Nesta quinta-feira, o Ministério Público Federal promove audiência pública justamente para cobrar respeito ao passado. Com o procurador Sérgio Suiama à frente, o título da audiência já vai direto ao ponto: “Cais do Valongo: Patrimônio Cultural da Humanidade: o que foi feito”? O MPF reclama que o considerado maior porto das Américas está sem um projeto de manutenção decidido desde que obteve da Unesco o título de patrimônio cultural da humanidade. “Não há sequer uma placa explicando por que o Cais do Valongo virou patrimônio da humanidade. A placa instalada até hoje é anterior ao título da Unesco”, disse o procurador, que perguntará diretamente à prefeitura e ao Ministério da Cultura que medidas foram tomadas após o sítio arqueológico passar a integrar a lista da Unesco.