Blog do Juca Kfouri

Il tacco di Dio

Juca Kfouri

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para Roberto Scorzoni

Na Itália, segundo pesquisa de 2015 do Instituto Demos-Coop, 35% dos torcedores preferem a Juventus. Muito acima dos demais times. O Milan e a Internazionale têm, cada um, cerca de 17% das preferências; o Napoli, 10%; e a Roma, 7%.

Há uma certa aproximação de alguns desses percentuais com o número de títulos dos times: a Juventus tem 34 scudetti (os últimos sete deles seguidos); o Milan e a Inter têm 18 cada; a Roma, 3; e o Napoli, 2.

Mas a Juventus é também o time mais odiado: 43% dos torcedores dizem ser o alvinegro o time contra o qual torcem com mais força. Esse percentual chega a 74% entre os torcedores do Napoli e da Inter, 63% entre os romanistas e 50% entre os milanistas.

A rivalidade particular entre a Roma e a Juventus é crescente e tem relação com o fato de a Roma ter o recorde de 14 vice-campeonatos, tendo a superá-la exatamente a Juve em 8 dessas ocasiões, sendo 3 delas nos últimos cinco campeonatos.

Mas a cidade de Roma não tem do que se queixar: é com certeza a mais bela do país. É um patrimônio riquíssimo composto por dezenas de maravilhas.

Duas delas se destacam, a meu ver.

Uma é a estátua de Moisés, feita por Michelangelo – que, quando a terminou, encantado com a perfeição da obra, e sentindo-se como Deus depois de criar o ser humano, começou a bater na estátua e gritar: “Parla! Per chè non parli?”.

Outra é o Coliseu, obra assombrosa de engenharia que, com capacidade para 80 mil espectadores, era palco das maiores batalhas e espetáculos dramáticos da Roma Imperial.

Curiosamente, foram também 80 mil espectadores que viram, em novembro de 2003, na vitória da Roma sobre o grande rival local, a Lazio, o brasileiro Mancini marcar um gol que alguns romanistas colocam à mesma altura dos monumentos que a cidade abriga. Veja aqui.

Mancini talvez tenha experimentado, no momento do gol, o mesmo sentimento maravilhado que Michelangelo externou ao ver sua estátua tão perfeita. Não chegou a gritar para que sua obra falasse, mas o locutor o fez por ele, denominando o gol de “o calcanhar de Deus”, como se se tratasse de criação divina.

Mancini está longe de ser um Michelangelo do futebol. Mas seu gol, de tão belo, merecia ao menos ter sido marcado no Coliseu.

Algo, aliás, que, segundo 43% dos torcedores italianos, não se pode dizer de nenhuma das conquistas da Juventus.

_____________________________

Luiz Guilherme Piva publicou “A vida pela bola” e “Eram todos camisa dez” – ambos pela Editora Iluminuras