Blog do Juca Kfouri

A dignidade de um bicampeão: o Chile

Juca Kfouri

Por ROBERTO VIEIRA

Pedro de Valdívia e o Cristianismo chegaram em 1540 ao Chile. O futebol chegou trezentos e poucos anos depois, sem tanto sucesso…

O Chile é uma ilha no fim do mundo e Santiago uma ilha chilena entre montanhas. A bela e singular capital de Mistral e Neruda se mistura com as geleiras dos Andes e a promessa de vinhedos e Valparaíso. O cenário é mais impressionante quanto mais distante for a pátria dos seus visitantes. A sensação de que pisamos em outro planeta com física e geometria próprias faz parte do jogo.

Andando pelos bairros ou através das janelas dos carros, viajando no metrô, metade subterrâneo e metade superfície, sofrendo com os motoristas de táxi – um dos poucos senões da cidade – o olhar contempla a terra sem crime e sem ostentações estéticas no trajar. O chileno, e principalmente as chilenas, são o que são. Discretos e vestidos com a simplicidade de quem está isolado do mundo embora conectado com a modernidade de Sanhattam. O hippie de Los Dominicos vende a escultura do índio mapuche por quinze mil pesos, ensinando crianças a brincar sob o cabelo de milhares de anos na testa. O artesanato está nas peças e nos rostos. Todo chileno tem essa mistura indígena e ibérica com pitadas de prédios franceses,  passado, estanho e cobre.

Procura-se uma brincadeira de bola e não se encontra na terra dos bicampeões da Copa América. A placa de sinalização perto da pequena praça no caminho do hotel alertando sobre crianças brincando de bola é quase piada local. Os imensos e belos parques se contentam com brinquedos desafiadores da coordenação das crianças no espaço e na altura. A cordilheira ao fundo assiste milhares de crianças brincando em paz nos experimentos alpinistas, lembranças de que, nessa terra, ou se chega pelos ares ou pelo mar congelado. As crianças do Chile adoram se jogar das alturas nos braços dos pais. Respeitadas e amadas.

Come-se muito. Arroz, milho, pollo, lomos e quase nada de macarrão. Feijão é suposição gastronômica. Come-se muito e não existe a obesidade corriqueira norte-americana e brasileira. Nada de self service. Os chamados buffets são comandados por quem vende e quem vende enche o prato. Vitaminas de naranja convivem com turistas bebendo coca cola sob o olhar compreensivo de quem ama o vinho. A água é mineral e muitas vezes desprovida de sódio, uma água que vem das montanhas como tudo o mais nessa terra. Tem gosto de água chilena, indecifrável e única no mundo também.

São gentis. Uma gentileza que desarma o espírito de quem chega do Brasil descortês. O motorista de ônibus não cobra pela viagem até o Museu Interativo pois quer ajudar aos estrangeiros meio perdidos. Os transeuntes explicam calmamente o caminho a seguir, a vendedora do BIT card subterrâneo também. Os garçons do Restaurante Giratório multiplicados enquanto o mundo gira do lado de fora, ou será o contrário, sorriem. O chileno é atualmente um ser humano de bem com si mesmo. Espécie rara no planeta solitário.

Porém, mantendo a tradição, chilenos também protestam nas ruas pelos direitos das mulheres, enlouquecendo no fim da tarde o já enlouquecedor trânsito da capital, enquanto me mantenho atento a promessa de não abrir a boca para falar de Pinochet nem de Allende.

Mas a minha alma deseja conhecer a tragédia, o drama, o velho estádio que havia sido prisão. Saindo de Las Condes, trocando de vagões em Los Leones e chegando ao passado na moderna estação do Estádio Nacional, eis que avisto, com os filhos mais novos e a esposa, o sepulcro. O Estádio Nacional do Chile.

Construído em 1938 como miniatura do Estádio Olímpico de Berlim – eu vi pouca semelhança – o Estádio Nacional faz parte de um complexo com quadras de tênis, piscina, velódromo e ginásio. Todos bem cuidados. Exceto o velho estádio.

Ali compreendo mais profundamente a alma desse povo bicampeão da Copa América e que não curte jogar peladas, preferindo algum bom livro, jornal ou a taça de vinho tinto. O Estádio Nacional destoa do restante da capital. Chego por lá nesse meio dia onde se prepara o show em homenagem ao Dia da Independência do Peru, celebrado no dia 28 de julho, país vizinho que ousa ganhar dos chilenos, de vez em quando, nesse velho campo de tantas histórias.

Enquanto do lado de fora a banda ensaia a música que será tocada na festa, enquanto os bares acanhados e dignos dos velhos estádios brasileiros organizam comes e bebes, eu e a família entramos no estádio sozinhos pela escotilha 7, bem perto da escotilha 8, local preferido pelos prisioneiros de 1973, pois acreditavam poder avistar algum de seus familiares nas redondezas do cárcere.

Surpresa.

Aqui o Vasco da Gama foi campeão sul-americano de 1948. Naquela barra, Joãozinho marcou o gol que deu a Libertadores para o Cruzeiro em 1976. Nesse solo, o Chile foi campeão da Copa América sobre Messi. Tudo aqui, nesse estádio que mistura o verde ao vermelho das cadeiras e ao branco sereno dos Andes.

Surpresa.

O estádio é humilde. As cadeiras estão puídas. A tribuna é um palanque interiorano. O chão cede aos nossos pés. Três funcionários lavam as cadeiras com seriedade britânica e água gelada. Janelas quebradas nos vestiários. Portas semimortas. Corredores maltrapilhos. O estádio parece pertencer a uma outra Santiago, uma Santiago que já não existe mais, porém uma Santiago que não pode ser demolida, implodida, sepultada. Coisa mais simples seria derrubar tudo e erguer o novo – como se faz em qualquer capital.

Aqui não.

O estádio sobrevive na UTI com seus recantos onde se acumularam as prisioneiras apavoradas, perto da piscina. Estádio com o aspecto de espectro macabro.

Cada local do velho estádio tem o odor de sangue e pus. Cada vão do velho estádio carrega em si cadáveres e fuzilamentos. Cada parede é guardada em seu instante congelado de prisão. Uma mensagem subliminar de que o tempo parou em setembro de 1973. Um aviso para que o presente não esqueça jamais do passado.

Meus olhos tentam escapar e olham o antigo placar. Buscam recordar quando Vavá sepultou também aos tchecos. Entretanto, as analogias mentais sucumbem ao real desta vez. Aqui nunca será apenas um campo de futebol. Aqui é um campo sim, mas um campo de concentração. Um monumento subliminar ao terror e até onde a desumanidade pode conduzir o ser humano.

Saio para o dia lá fora perdido como se estivesse nas alturas do Valle Nevado. Os filhos pequenos me impedem de permanecer com este gosto amargo na boca. A inocência dos filhos afasta de mim esse cálice. Tomo o metrô e vou brincar no Parque Arauco.

No dia seguinte, sentado no avião, observando na partida essa ilha no final do mundo, esse povo que superou a geologia e a história, esse povoado com sete milhões de sobreviventes que aprendi a respeitar como velhos amigos na trajetória dessa América Latina dentro de cada um de nós, essa nação que se permite ônibus elétricos verdes, ônibus elétricos que eram minha paixão de criança, essa aldeia de ceviche e smog, procuro aquela palavra certa para definir esse povo que está tão a frente do caos do meu país. Um povo vivendo saudável dos glaciares ao Atacama. Um povo civilizado e extraordinariamente cordial – um cordial real, ao contrário de outros povos que se dizem cordiais na sociologia.

Um povo de um país que não é certamente o país do futebol.

Procurei esta palavra por muitos dias, até que esta palavra chegou dos lábios da minha esposa naquela tarde de frio em Santiago.

O povo chileno se define em uma palavra conquistada com muito sofrimento, luta e trabalho.

Uma palavra chamada dignidade…

Santiago do Chile, inverno de 2018