Blog do Juca Kfouri

Neymar, um injustiçado 

Juca Kfouri

POR RICARDO PORTO*

É uma injustiça. A eliminação do Brasil da Copa não pode continuar sendo colocada na conta de Neymar.

O camisa 10 do Brasil caiu mais em campo do que se esperava? Caiu. Reclamou, encenou e retardou o jogo mais do que o normal? Com certeza. Não foi o único, diga-se de passagem.

Depois de três meses afastado dos gramados, vítima de fratura, Neymar reunia condições de exibir o melhor de sua arte em cinco jogos? Claro que não.

Os erros que acabaram derrubando a Seleção passam também por Neymar. Muito menos por ele do que pela gestão da equipe, escolhas táticas, técnicas e eventos fortuitos – uma bola na trave, uma finalização infeliz – que fazem parte do destino imponderável das partidas de futebol.

Então é de se estranhar que Neymar não tenha sinceramente abordado esses temas na volta para casa.

Durante a Copa, ele deliberadamente fugiu das polêmicas. Em sua única participação em coletivas pós jogos, respondeu a uma única pergunta da imprensa. Fechou-se em silêncios enigmáticos, cortes de cabelo temáticos, escondeu-se atrás do muro erguido por seu staff, CBF e família. Agiu como se, aos 26 anos, passagens por Barcelona e Paris, ainda precisasse de alguém para resolver suas questões com o mundo do futebol.

Massacrado pela mídia internacional, e por memes nas redes sociais, Neymar tentou ignorar as críticas do mundo real, como se fosse possível para uma celebridade cujo sucesso está hoje tão atrelado ao seu desempenho midiático quanto aos dribles e gols que o consagraram.

Seria bem mais fácil entender que, na linguagem metafórica do matuto, não dá para tapar o sol com a peneira. Impossível desconstruir a fama de “piscinero” via ausência repentina. É preciso agir. Encarar a responsabilidade.

Se pretende um dia liderar um time ou uma seleção rumo a títulos mundiais, Neymar tem que se mostrar um craque nas adversidades.

Todo mundo erra. Eu erro. Você erra. Neymar erra. Admitir o erro é um passo essencial no caminho de superá-lo. Um líder encara o erro e o desafia. Neymar terá esse perfil? Para ser a referência que o Brasil um dia supôs que seria, o líder dentro e fora do campo, Neymar vai ter que deixar o Jr no passado.

Feito CR7, terá que olhar mais para o campo, mais para os companheiros e menos para o telão e as telinhas. Terá que assumir suas dívidas, seus compromissos.

Por isso, hoje somos injustos com o “menino” Neymar. Não. Não dá para cobrar de alguém algo que esta pessoa não tenha como entregar. Liderança se cobra de homens e não de meninos.

*Ricardo Porto é jornalista.