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Ajude a publicar a verdadeira história do Brasileirão de 1987

Juca Kfouri

05/03/2017 10h00

Pablo Duarte Cardoso* pesquisou a Copa União de 1987 e escreveu um excelente livro a respeito. Abaixo, a entrevista que concedeu ao blog "Verminosos por futebol".


Quando o livro será lançado oficialmente? A impressão será sob encomenda, como nos modelos de financiamento coletivo?
A nossa programação prevê o lançamento em novembro, perto do aniversário do Flamengo e às vésperas do 30o aniversário do Tetracampeonato Brasileiro conquistado pelo clube. Devido ao momento difícil do mercado editorial, tivemos de recorrer a um esquema de pré-venda para custear a primeira tiragem. (Detalhes em http://maquinariaeditora.com.br/maqui/site/index.php?sec=10&id_noticia=253)


A pesquisa e redação demoraram quanto tempo? Você entrevistou gente que viveu aquela época?
Cresci obcecado com aquele título e aquela polêmica, então, de certo modo, o livro é fruto de reflexões que duram trinta anos. Mas a pesquisa a sério mesmo eu a conduzi ao longo de todo o ano de 2016, entre a leitura criteriosa do noticiário da época, entrevistas com gente que participou dos acontecimentos e o estudo do processo judicial movido pelo Sport do Recife contra a CBF em 1988. A redação mesmo foi o mais fácil: cinco meses entre o primeiro esboço e o ponto final, não considerando as revisões.

Entrevistar as pessoas foi a parte mais gratificante do trabalho, e eu falei com muita gente, entre jogadores, técnicos, cartolas, jornalistas, juristas, políticos e até torcedores. Gente não apenas do Flamengo — Zico, Marcio Braga, João Henrique Areias, Gilberto Cardoso Filho —, mas do São Paulo (Gilmar Rinaldi), Atlético (Marquinhos), Vasco da Gama (Eurico Miranda)… e, o que é mais digno de nota, dos times que participaram do Módulo Amarelo: Evair do Guarani, Mauro Galvão do Bangu e, principalmente, Emerson Leão e Estevam Soares do Sport do Recife. Aliás, essa foi a mais grata surpresa do processo: a facilidade com que cheguei aos adversários do Flamengo nessa contenda, e a gentileza com que todos me trataram, sem exceção.

Quais são os méritos desse livro?

O principal mérito do livro é pretender ser exaustivo. Com o passar do tempo, na medida em que os acontecimentos vão ficando distantes, a gente perde a memória do que eram o Brasil e o futebol brasileiro em 1987, e coisas que pareciam óbvias então acabam tornando-se obscuras. Por isso, e para ilustração de uma nova geração de torcedores que não viveu aqueles processos, eu procuro ser bem didático ao relacionar aqueles acontecimentos com o ambiente político do Brasil de 1987.

Há uma relação evidente entre a briga dos grandes clubes com a CBF e o processo de redemocratização do país que estava em curso, mas com o passar do tempo isso acabou esquecido. Recordemos: em 1987, vivíamos o primeiro governo civil depois de duas décadas, não votávamos para Presidente havia quase trinta e em Brasília se negociava a Constituição democrática. Naquele contexto, romper um esquema de arbitrariedades que beneficiava uma CBF ilegítima e federações estaduais corrompidas, um esquema montado lá atrás pela ditadura do Estado Novo e fortalecido pelo regime militar, era parte importante da construção da nossa democracia. Isso era óbvio para os participantes ou apoiadores desse processo, gente politicamente engajada como Marcio Braga (Flamengo), Paulo Odone (Grêmio), Juca Kfouri (revista Placar), João Saldanha (Jornal do Brasil), entre tantos outros, e acho que o principal mérito do meu livro é resgatar esse aspecto central da história. Por isso, mais do que por qualquer outro fator, aquele é o campeonato mais importante da história de nosso futebol.

Houve alguma descoberta significativa durante a produção do livro?

Muitas, a começar pela constatação que eu acabo de fazer, que era intuitiva para mim, que tinha apenas onze anos em 1987, mas que era uma coisa evidente para toda esse gente que enumerei. Mas há muito mais. Até aqui, por exemplo, pouco se sabe sobre o tal Módulo Amarelo, o campeonato semiclandestino que a CBF montou às pressas com quem ficou de fora da Copa União e que depois quis transformar um "módulo" de um torneio mais amplo, contra as objeções dos grandes clubes. Mesmo o torcedor do Sport conhece pouco a respeito, e diz bobagem por aí, nesses fóruns futebolísticos. Pois muito bem: acho que, pela primeira vez, alguém contou o que foi efetivamente esse capítulo esquecido, com suas virtudes e suas misérias. Fora isso, acho que finalmente alguém explica satisfatoriamente algumas verdades que víamos repetidas por aí, sem nota de rodapé, e cuja solidez eu demonstro com fatos e argumentos: coisas como o fato de a CBF ter malandramente querido impor um regulamento com a competição já iniciada; por que esse regulamento era ilegal; em que circunstâncias Eurico Miranda concordou com esse regulamento, e por que isso não tem a menor importância dum ponto de vista jurídico etc.
Muito se fala sobre a disputa do Módulo Verde, mas muito pouco do Amarelo. Como foi a disputa da suposta segunda divisão?

Comecemos pelo positivo: depois de anos e anos sem uma segunda divisão minimamente estruturada — o que havia era uma Taça de Prata com um valor meramente adjetivo, e disputada por um número excessivo de clubes —, pela primeira vez, ali, se estruturou um torneio relativamente homogêneo, e com um número aceitável de clubes de um segundo escalão do futebol brasileiro. Havia ali pelo menos um grande time, o do Guarani, que foi excluído da Copa União não por decisão do Clube dos Treze, mas por uma exigência da CBF, que achava que ali já havia cariocas e paulistas demais. No mais, o Sport montou um time inegavelmente forte para um torneio naqueles moldes, o elenco deu liga e o clube sobressaiu-se na fase classificatória. Mas não exageremos ao fazer essa constatação: no livro eu demonstro que, nas semifinais com o Bangu, e mesmo nas finais com o Guarani, o Sport beneficiou-se de expedientes questionáveis.

Houve na história algum Campeonato Brasileiro tão bem sucedido quanto aquele de 1987?

Em matéria de público, o Robertão de 1967, vencido pelo Palmeiras, e a Taça de Ouro de 1983, vencida pelo Flamengo, tiveram uma média superior, mas 1987 foi a última vez na história em que a média dos 20 mil pagantes por jogo foi superada, em contraste com as edições automaticamente precedentes e com todas as edições do torneio de 1988 para cá. Mas esse é apenas um aspecto da história. 1987 é tão importante, e tão discutido, por esse aspecto político que eu exploro, mas também pelas inovações que introduziu: a Copa União foi o nascimento efetivo do marketing esportivo no Brasil, e todo o dinheiro que os clubes ganham hoje, com transmissões televisivas, é fruto daquele esforço. Também começou ali um processo de racionalização do campeonato, que teve idas e vindas, mas vai desaguar nessa fórmula estável a que chegamos em 2003. No mais, foi um campeonato absolutamente apaixonante, em que quase todos os jogos eram clássicos, e vencido por um esquadrão composto por dez jogadores de seleção, e que formou a espinha dorsal da seleção do Tetra, em 1994.

E por que a Copa União durou tão pouco tempo, só até 1988?

A bem da verdade, a edição de 1988 só guardava da Copa União o nome de fantasia. A montagem daquele campeonato representou a capitulação, a rendição dos grandes clubes e de quem lhes dava apoio político — a figura inesquecível do professor Manoel Tubino — diante dos interesses escusos e mesquinhos da CBF e das federações estaduais. Já a partir de dezembro de 1987, o vice-presidente da CBF, o sr. Nabi Abi Chedid, e as federações estaduais, capitaneadas pela figura controversa do Caixa d'Água, começam a tentar minar a unidade dos grandes clubes, e vão encontrar um aliado precioso em Eurico Miranda, do Vasco. A segunda Copa União, inchada com 24 clubes, foi uma vitória desses interesses e uma derrota dos grandes clubes, e o processo vai desaguar na eleição de Ricardo Teixeira como presidente da CBF em 1989, com Eurico Miranda de vice.

Se a liga organizada por clubes tivesse durado até hoje, à semelhança do rompimento que gerou a Premier League no início dos anos 90, seria mais provável que o futebol brasileiro de clubes estivesse em patamar melhor ou pior que o atual?

Muito melhor, sem nenhuma dúvida. Será, talvez, apenas a opinião de um torcedor, mas temos aí os exemplos da Inglaterra, da Espanha, da Itália ou da Alemanha a demonstrar os efeitos de uma organização nesses moldes, com os clubes gerindo a sua liga e a federação a cargo das seleções nacionais. E temos, de outro lado, os exemplos da Argentina e do Brasil, que padeceram décadas de avassalamento dos clubes a figuras como as de Julio Grondona e de Ricardo Teixeira, com os efeitos que estamos vendo. E com um detalhe que não é menor: se tivesse prosperado a ideia da liga independente, em 1987, os grandes clubes estariam livres das amarras que ainda hoje os prendem às federações estaduais e seus campeonatinhos falidos.

Há esperança de que uma experiência como aquela volte a ser realizada?

A Primeira Liga foi uma ideia interessante, mas que aparentemente murchou. A principal lição que eu extraio de 1987 e 1988 foi que, num momento crucial da batalha, e ao contrário do que se deu nos casos da Inglaterra e da Espanha, faltou aos clubes o apoio político decidido do Governo nacional. Se quisermos ressuscitar aquela experiência, se quisermos voltar a levantar as bandeiras por que brigávamos em 1987 e 1988, será preciso aos grandes clubes organizar-se politicamente, e será preciso que o Governo Federal entenda que deve comprar certas brigas, em benefício da paixão popular. E será preciso, também, que clubes como o Flamengo e o Corinthians entendam que, em troca do apoio dos demais, precisarão de algo de generosidade na hora de repartir receitas.

Por fim, ao seu ver, quem merece constar como campeão brasileiro daquele ano: Flamengo, Sport ou os dois?

Apenas o Flamengo, e creio que demonstro isso no livro, com argumentos históricos e jurídicos que entendo incontestáveis. Infelizmente, a partir de 1989, o Flamengo tratou do processo com enorme desídia, e o resultado é esse que se viu: a perpetuação de uma fraude cujo principal beneficiário não foi nem sequer o Sport, mas a CBF de Nabi, de Ricardo Teixeira e de seus herdeiros, e as federações estaduais que inacreditavelmente sobreviveram àquela tentativa malograda de revolução.

*PABLO DUARTE CARDOSO é advogado de formação (UERJ) e diplomata de carreira. Ingressou no Itamaraty em 2000 e serviu nas Embaixadas do Brasil em Buenos Aires, Washington e Ottawa (onde reside atualmente). Nasceu em Juiz de Fora (MG) e criou-se em Niterói (RJ). É torcedor do Flamengo.

 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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