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Você pode ajudar a pôr um fim na Torcida Única!

Juca Kfouri

15/02/2017 10h00

*POR RICARDO BORGES MARTINS

A política de torcida única nos clássicos paulistas – implementada em 2016 – será mantida em 2017. Com isso, o jogo mais esperado deste começo de ano, Santos e São Paulo, terá suas portas fechadas ao torcedor tricolor. 
Seu Tião que mora ali pelas cercanias da Vila Belmiro, mas é são-paulino doente, está banido do estádio. Não que ele tenha feito alguma coisa para isso, mas em jogo do Santos, torcer para o São Paulo é uma transgressão inaceitável para as autoridades públicas paulistas. 

"A questão", eles dizem, "é apenas que a torcida santista se sentirá mais à vontade para levar sua família, esposa e namorada se o torcedor do time rival não comparecer". 

Em outras palavras, Seu Tião, o estádio fica mais seguro sem você.

Punir o coletivo por (possíveis) infrações individuais deveria, em qualquer situação, ser execrável, absurdo e simplesmente inaceitável em um Estado Democrático de Direito. Mas as autoridades públicas têm afirmado que a política de torcida única tem tido "resultados excelentes". Então, tudo bem, para as autoridades paulistas, os fins justificam os meios.

Não há sombra de dúvida de que devemos combater a violência entre torcidas no futebol e que precisamos de resultados. Mas a questão fundamental que precisa ser respondida é: qual é o futebol que estamos promovendo por meio dessa política? Mais importante que isso: qual sociedade estamos alimentando por meio dessa política? A resposta me parece clara: uma sociedade que nega a possibilidade de convivência e tolerância, desenhada para evitar o contato entre pessoas de diferentes convicções. 

Seu Tião vai sempre ao bar tomar uma gelada com seus amigos palmeirenses, corintianos e santistas. Se um dia virar moda briga em bar por motivos relacionados ao futebol, vamos fazer o quê? Proibir a entrada de torcedores de diferentes times em um mesmo bar? Todo bar terá um time mandante por rodada? Serão proibidas, camisas, bonés, tatuagens ou outros elementos de identificação? 

Sabemos que a insistência na política de torcida única não passa de um atestado de incapacidade do poder público em lidar com os problemas de segurança pública envolvendo o futebol. Uma medida como essa é absolutamente insustentável e termina por promover a antítese do esporte que move multidões em todo o mundo. 
Se toda a questão ética não fosse suficiente (e eu acho que já seria), haveria ainda uma outra objeção fundamental: a torcida única não resolve o problema da violência!
De que adianta a proibição dentro do estádio em um momento em que brigas podem ser agendadas via WhatsApp, Facebook, Twitter, Email em qualquer lugar da cidade? Segundo pesquisa de Maurício Murad em seu excelente livro Para Entender a Violência no Futebol, mais de 80% das brigas entre torcedores acontecem mesmo fora dos estádios. 

Ademais, essas brigas são em regra geral iniciadas e arranjadas por um mesmo grupo extremamente minoritário e já bastante conhecido das autoridades. Murad levanta que, das 345 torcidas cadastradas no Brasil apenas 15% foram reincidentes em atos de vandalismo e violência em 2014 e 2015, e entre esses os responsáveis pelas agressões e vandalismos representam menos de 7% dos filiados. 

Agora, o grave mesmo – aquilo que deveria funcionar e não funciona – é que apenas 3% dos crimes cometidos no futebol foram levados até as últimas consequências. Ou seja, por que não criar um sistema de monitoramento que realmente funcione, como, aliás, fizeram todos os lugares que combateram a violência com sucesso?
Temos diferentes experiências bem-sucedidas de combate à violência no esporte pelo mundo. Alemanha e Inglaterra enfrentaram o hooliganismo, cada uma a sua maneira, de acordo com os costumes e leis de cada país. No Brasil, a Comissão Paz no Esporte elaborou relatório** ainda em 2006 com as principais ações que o poder público, as federações e os clubes deveriam seguir para promoção da paz nos estádios.

E a palavra central para resolver esse problema é inteligência. 

Não podemos aceitar a torcida única nos clássicos paulistas. Seja pela defesa dos princípios que regem o esporte, seja pelo ponto de vista da ineficácia da medida, é fundamental nos unirmos pelo fim dessa medida. 

A Minha Sampa, rede que fiscaliza e pressiona o poder público em São Paulo da qual faço parte, lançou recentemente uma campanha para informar e pressionar diretamente as autoridades responsáveis pelo fim da torcida única nos clássicos paulistas. Você pode participar da campanha por aqui: www.bit.ly/TorcidaUnida .

Se milhares de torcedores de todos os times pressionarem o secretário de segurança pública, o Ministério Público e a Federação Paulista, e mostrarmos que a sociedade repudia essa medida, eles terão que voltar atrás e abolir essa medida descabida. 

*RICARDO BORGES MARTINS é cientista social, Ex-Diretor do Bom Senso FC e atual Coordenador de Mobilização da Minha Sampa
**(disponível aqui: http://www.abcd.gov.br/arquivos/PUBLICA%C3%87%C3%95ES/RelatorioFinalPazEsporte.pdf

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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