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Implacável Placar

Juca Kfouri

23/11/2016 14h00

POR ANDERSON BORGES COSTA*

Carregou a bola com os pés, controlando-a e protegendo-a do adversário, levou-a para a direita e fugiu do zagueiro, ajeitou com o lado de fora do pé e chutou forte. Indefensável para o goleiro. Um lindo gol. Aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo. Não havia tempo para mais nada. Um gol no final, um gol para a final. Afinal, um gol é um gole de delírio.

 
Ele, o autor do gol, também delirava. Oscar, um jovem recém-saído da adolescência, experimentava o apogeu de um sonho: ser o autor de um gol no último minuto de um jogo na Copa de Mundo de futebol. A Seleção, o seu país representado na ponta da chuteira, no bico do pé, na unha arredondada, no esmalte da bola, no fundo da rede. Gol, olé, viva. Oscar, o ápice da emoção, o cume da alegria, o orgasmo da nação. Gol do Brasil, gol de Oscar. O menino, agora eternizado no fato de ter colocado a esfera entre duas traves, sob o travessão, dentro da rede. Oscar fora pescado pela realização de um feito que só se concretiza em sonho. Bola na rede, punho em riste, olhar na torcida. Gol no último lance. No rosto de Oscar, um choro: ele jamais esqueceria aquele momento.

Após o gol, o apito. Após o apito, fim de jogo, fim do sonho. Oscar saiu do campo, entrou no túnel do vestiário e foi direto para o sétimo ano escolar, no interior de Sergipe, na aula de educação física com o professor Edmundo. Foi lá, aos 12 anos, que Oscar decidiu com os pés que seria jogador de futebol. Com a mão direita, durante a aula, segurando um lápis preto, desenhava no caderno de matemática um gramado e ensaiava jogadas para mostrar aos colegas no intervalo da aula.

 
Fernandinho, Willian e Fred: os melhores amigos de Oscar observavam atentamente os desenhos feitos no caderno pautado de matemática. A equação de segundo grau era um lance individual, um drible dado em três adversários e um passe em profundidade para Fred triangular com Willian e, trigonometricamente em ângulo reto, concluir o vértice do triângulo para Fernandinho atirar sem chance para o goleiro. Oscar desenhava jogadas, criava estratégias e, principalmente, executava-as exatamente conforme havia calculado no caderno de matemática, com a exatidão numérica de uma fórmula infalível.

O pai de Oscar, Manuel, analfabeto da cidade de Brejo Grande, manejava, com astúcia e técnica arrojada, aparadores e podadores e cortava árvores e enchia um caminhão de galhos e seiva todos os dias. Após seis horas seguidas manipulando uma serra de arco no tronco das árvores, sob um sol cortante e ensopado de suor, fazia uma pausa de quinze minutos. Era o intervalo merecido após a primeira etapa de árduo trabalho incessante, sob cerrada marcação de um patrão que não fazia concessões e serrava qualquer tentativa de subir serras de reivindicações. Após o final do primeiro tempo corrido de seis horas, Manuel abria a marmita e elaborava uma estratégia certeira para a sequência de garfadas em três lances que culminariam com o esvaziamento do recipiente preparado por sua mulher, Francisca, em uma única partida de cinquenta e seis anos. Farinha com sal era a escalação do almoço de Manuel. Para beber, água quente do sol que recheava a pele e esquentava os anos de trabalho em rugas e rusgas que a vida lhe oferecia em um jogo de noventa minutos por hora com regras claras e pré-estabelecidas. O segundo tempo era sempre mais longo: oito horas seguidas, sem direito a substituições, um acréscimo estratégico que o técnico utilizava para aumentar o rendimento da equipe. Manuel, veterano do time, precisava dosar as idas ao ataque sem descuidar da marcação na defesa. Ele não queria perder o lugar no time, precisava continuar jogando para que a família não fosse rebaixada à Segunda Divisão do campeonato sergipano.

Com oito filhos do primeiro casamento, Oscar era o quinto filho do segundo casamento de Manuel, num total de catorze crias que vingaram, além das sete que não vingaram. Por vingança, Manuel prometera que iria proibir seus filhos de trabalhar antes de se formarem no ensino fundamental. O técnico de Manuel, o professor, elaborava táticas diárias que, na maioria das vezes, eram difíceis de cumprir. Ir ao ataque e proteger a defesa ao mesmo tempo, no primeiro tempo, no segundo tempo, na prorrogação, sem interrogação, rogando aos deuses do árido e esburacado gramado que não marcassem impedimento nem lhe dessem um cartão vermelho. Manuel, pernas tortas e um destino incerto, decepava troncos e instruía os colegas a levá-los, em três movimentos, as toras serradas para o caminhão, à espera de engoli-las para o professor espremê-las em lucrativas contratações.

Manuel, do alto da serra de seu analfabetismo serrado, do alto de sua almafabeta, gama e grama, traçava uma ópera italiana para conduzir os troncos, por barrancos, à caçapa do caminhão boia-quente, boca aberta, patrão alerta para receber o suor do dia. O primeiro movimento era rápido; o segundo, mais lento; o terceiro, novamente, rápido. O andamento da sinfonia que Manuel traçava levava alguma comida para os filhos, trapos para vesti-los e lápis para Oscar desenhar as jogadas que chutava na escola.

Francisca, anos e anos jogando no mesmo tempo, o primeiro tempo interminável, era o goleiro da casa. Defendia, em saltos arriscados, bolas perigosamente alçadas para o ângulo reto e para o ângulo redondo em rodelas de bolos e bolas de farinha requentadas com sal para enriquecer a saliva de Manuel. Parira partidas inteiras em uma prole ampla que era a preliminar da peleja nossa de cada dia. Agarrou pênaltis bebidos em altas doses etílicas por Manuel em alguns quase gols contra. Saiu jogando com o pé, fora da área de segurança, fora da área de serviço, dentro de limitadas colheradas de sopas cozidas com sol, com sal, sem sul, desnorteada de temperos em grisalhas têmporas atemporais. No primeiro tempo de seguidos segundos seguros com dentes e unhas desmaltados, impediu que seu time sofresse humilhante derrota no serrote de Manuel.

Oscar desenhava em seu caderno o atalho para o atol traçado nas quatro linhas do jogo. Tentava escantear a fome de bola com bala de gude grudada no canto do lápis, na ponta-esquerda atolada de vontades. Chutou uma bola no meio da aula de português. A bola seguiu uma elipse irregular e desviou do patrão de seu pai, desviou da marmita de seu pai, desviou do sonho de seu pai, desviou do pulo do goleiro e entrou no gol. Oscar olhou a bola no fundo da rede. Era o último minuto de uma partida na Copa do Mundo. Bola na rede, punho em riste, olhar na triste torcida. Gol no último lance. Gol do Brasil. No rosto de Oscar, um choro: 7 x 1 para a Alemanha.

*Anderson Borges Costa está lançando "O livro que não escrevi", pela editora giostri. 


 

 

 

 

 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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