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Blog do Juca Kfouri

É criança na água, estúpido!

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Juca Kfouri

12/08/2016 18h01

POR RENATO CORDANI*

Não é preciso fazer muitas contas para concluir que a seleção brasileira de natação não foi bem nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Ainda faltam duas finais, mas todo mundo viu, todo mundo sabe. Não que se esperassem muitas medalhas, a minha previsão era apenas uma, mas a grande maioria acabou piorando os tempos ao invés de melhorar. Muitas desculpas podem ser dadas pelos brasileiros individualmente: pressão da torcida, horário inadequado, o calor, a comida, Deus, a Vila, sei lá. São justificativas razoáveis, e não estou sendo irônico. Mas é isso o que temos, e querendo ou não, a seleção brasileira é formada nada mais nada menos pelos melhores nadadores que temos hoje no Brasil.

Aí você vai dizer: "ah, mas a Katinka, o Phelps, o Peaty, a Ledecky não sentiram nenhum desses problemas!". Isso é fato, inclusive a Katinka, a Ledecky e o Peaty bateram recordes mundiais. Eles não sentiram nada disso, e obtiveram rendimento máximo na final olímpica, que é o objetivo de todo nadador.

Fazer o melhor tempo da vida na final olímpica é uma tarefa para poucos e bons, e não é inédito para brasileiros, por exemplo:

Ricardo Prado fez o seu melhor tempo ao ganhar a prata olímpica em 1984 (aqui).
Gustavo Borges tem seus melhores tempos de 100L e 200L em finais olímpicas medalhadas em 1996.
Fernando Scherer fez seu melhor tempo quando beliscou o bronze olímpico em 1996.
César Cielo fez seu melhor tempo ao ganhar o ouro olímpico em 2008, e o melhor de 100L (WR até hoje) na final do mundial de Roma em 2009.
Thiago Pereira fez sua melhor marca – adivinhem! – na final olímpica dos 400 medley em que ele garantiu a prata em 2012.

Enfim, alguns dos nossos nadadores já fizeram isso, embora com muito menos frequência do que os americanos. Quais nadadores? Os gênios! Aqueles que são os mais talentosos dentre os talentosos. Os quase sobrenaturais. O meu ponto aqui é que muito poucos nadadores são assim. De vez em quando, por pura sorte, um desses ultra-talentos pipoca por aqui.


Ricardo Prado: prata olímpica com melhor tempo da vida na final.

Já nos países que apresentam muitos talentos o tempo todo, como é o caso dos Estados Unidos, é porque os talentos foram selecionados dentre muitos milhares de nadadores. Nos EUA, em cada estado, em cada pequena cidade, seja nas escolas ou em clubes, a criança tem muito estímulo para nadar, mostrar seu talento e de um dia ser recrutado para a seleção. E de milhões, se faz uma seleção só de craques. É uma questão de simples estatística!

Com qual frequência aparece uma Ledecky? Com qual frequência aparece um Lochte?

Aqui no Brasil quantos são os centros de natação mirim-petiz? Que estados tem projetos para as suas crianças? Quantas escolas têm piscina? Quantos patrocinadores privados patrocinam o esporte de base? Quantos olheiros estão buscando talentos em locais de baixa renda? Quais Federações têm recursos próprios e fazem competições bacanas para a molecada? Quantas crianças estão na água? Fora a Federação Aquática Paulista e mais umas poucas outras, a verdade é que as nossas crianças não estão na água!


Paulista Petiz de Verão 2015: quantos estados do Brasil colocam tantas crianças na água?

Portanto a culpa dessa situação desoladora não é dos nadadores atuais, eles são os melhores do Brasil e estão lá com méritos. O que está faltando é criança na água!

Não sou leviano em dizer que essa culpa tem nome e sobrenome: sr. Coaracy Nunes e a sua CBDA, afinal essa turma está lá há quase trinta anos! Muito dinheiro é gasto com o alto rendimento (olha o exemplo do Pólo masculino), para tentar maximizar o número de medalhas, mas as Federações estão à míngua! Nenhum apoio real da Confederação é empenhado em competições para crianças, a não ser em alguns estados que se viram sozinhos. E as medalhas olímpicas, como vimos, só acontecem quando aparece (por pura sorte) um desses gênios! E para piorar, todo o dinheiro que está sendo usado hoje em dia vem quase exclusivamente de UM patrocínio estatal (Correios), que já disse que o dinheiro vai acabar… o que será de nós daqui para a frente?

Preparo psicológico, treinamento de altitude, tecnologia de ponta, técnicos de primeira, equipamentos de primeira linha, tudo isso a gente tem! Só falta criança na água, e é justamente o que de melhor uma Confederação de Desportos Aquáticos poderia fazer… e não está fazendo!

Essa está longe de ser a única, tem outras (aqui), mas é a principal razão pela qual já passou da hora de mudar: MUDA CBDA!

*Renato Cordani foi campeão brasileiro de natação.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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