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Blog do Juca Kfouri

Bola com endereço

Juca Kfouri

20/01/2016 14h25

POR LUIZ GUILHERME PIVA

As cartas voltaram à moda – ao menos ao noticiário.

Mas são cartas diferentes das cartas de outra época, classicamente relacionadas a amor e saudades.

Como a da história que o Tostão contou há tempos.

Um colega dele do Cruzeiro ou da Seleção, que não sabia escrever, pediu-lhe, numa excursão longa à Europa, que escrevesse uma carta à amada no Brasil.

O Tostão prontificou-se e, caneta e papel em mãos, esperou o ditado. Houve um longo silêncio e o colega então pediu: "escreve umas coisas bonitas, que falem assim de estrelas, de eternidade".

Muitas cartas de amor eram anônimas. Como as que, numa cidadezinha do interior, um goleiro começou a receber.

Toda semana o vigia do campo lhe trazia o envelope deixado sob o portão.

Declarações de amor, promessas, elogios, suspiros – e até, talvez, estrelas e eternidade.

Cartas com perfume. Com desenhinhos de coração. Com a letra bordada.

Diziam sempre que a autora estaria no próximo jogo só para vê-lo.

Ele passava o jogo olhando pro alambrado, pros degraus da torcida, pra laje atrás do seu gol, tentando achar um rosto, um sorriso, um olhar que denunciassem a missivista.

Nada.

Sofria a cada jogo.

A consequência é que os gols tomados aumentaram.

Todo jogo uma ou duas falhas.

Acabou afastado do time titular.

E as cartas cessaram.

No banco de reservas, seguia a busca com os olhos, agora mais agoniado.

Perguntava ao vigia, mas nenhum envelope chegava.

Até que chegou uma. Mas o vigia lhe disse que era para o novo goleiro titular. Ele a arrancou das mãos do vigia, abriu e leu: a mesma letra, as mesmas palavras, o mesmo perfume, os coraçõezinhos, as juras, as declarações.

Uma punhalada.

Mas deduziu que, de duas, uma: ou a autora gostava mesmo é de goleiro em ação, ou alguém, adversário, fazia aquilo para distraí-los.

Deixou as novas cartas chegarem ao seu substituto. Que, do mesmo modo, começou a tomar gols fáceis e perdeu a posição.

De volta ao gol titular, proibiu o vigia de lhe entregar as cartas que chegassem. Era pra rasgar e queimar – "para não sofrer mais", disse.

E nunca mais saiu do time.

Mas até hoje sente uma saudade imensa daquelas palavras, daquele perfume, daqueles desenhos.

À noite, relê as cartas antigas e fica, comovido, olhando as estrelas e pensando na eternidade.

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Luiz Guilherme Piva publicou Eram todos camisa dez (Editora Iluminuras).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/