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O gol é masculino. A bola é feminina. E se move

Juca Kfouri

02/11/2015 12h00

POR CAMILA KFOURI

Eu não participei da campanha #meuprimeiroassedio.

Não tive a coragem necessária para fazer meu relato.

Porque ele me fere, fere minha família que só soube quando eu tinha 21 anos e convive com a dor de não ter podido me proteger.

Não consegui dar o meu depoimento mesmo sabendo que a falta dele fundou em mim uma autoimagem negativa e culpada.

Não sei ao certo quanto tempo durou e nem que idade tinha, só sei que tinha menos de 7 anos e que essa seria apenas a primeira violência sofrida pela criança que fui na São Paulo dos anos 1980, sob a sombra do governo Paulo Maluf.

Apesar do meu silêncio, ou por causa dele, foi para falar deste tema que, pela primeira vez, meu pai me convidou para ocupar o espaço dele, como uma voz feminina, destoante de seu mundo futeboleiro.

Eu não gosto de dizer não para o meu pai e, se acho lindo que ele participe da iniciativa, me sinto obrigada a fazer minha parte.

No fim da semana passada, as mulheres tomaram as ruas e cantaram #foracunha com indignação e alegria, num clima que não se via desde junho de 2013.


Este grito finalizou apoteoticamente uma semana em que o aparecimento de Simone de Beauvoir em uma prova do ensino público chocou a tradicional família brasileira que, como diz Caetano, vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal.

Mas se um texto de uma filósofa (texto de 1949, diga-se) causou mais barulho do que a tentativa, na mesma semana, de diversos ataques do Congresso Nacional, na figura de seu odioso presidente Eduardo Cunha, aos direitos humanos básicos das mulheres, assistir a homens adultos sexualizando e objetificando uma menina de 12 anos em um programa de culinária foi demais para um número enorme de mulheres, não necessariamente ligadas à militância feminista.

E uma onda de relatos de seus primeiros sofrimentos causados pela violência machista tomou conta da internet.

Não tem mais volta.

O que está dito está dito e não há mais como negar que se cometem violências atrozes contra as mulheres desde que são crianças, para que fique claro desde sempre que estão no mundo para se submeter ao desejo masculino, para servir, para obedecer.

A luta é apenas pelo direito à vida plena e em igualdade de condições e é chocante que, em 2015, ainda estejamos lutando pelo direito ao corpo, para que ninguém, nem o Estado nem as pessoas, se sinta no direito de violá-lo.

Nosso grito agora ocupa as ruas e as redes.

A bola está com a gente e se, por acaso, passar pelo pé de um homem, esperamos dos caras que acreditam que o mundo pode ser melhor, que devolvam o passe para a gente chutar para o gol.

#AgoraÉQueSãoElas

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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