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Blog do Juca Kfouri

Frederico Marcondes Carvalho (1981-2015) - Um tipo inesquecível

Juca Kfouri

21/02/2015 18h41

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Maria do Carmo/Folha Imagem

Morreu, hoje, em Santos, o companheiro de ESPN Brasil, e amigo de muitos anos, Frederico Marcondes Carvalho.

Chocado, achei a melhor homenagem que se possa prestar a ele no texto que segue, de Silvio Lancellotti, publicado originalmente na "revista da Folha", em 2010, aqui adaptado, basicamente, nos tempos verbais.

Fred chegou ao limite dele, cansou, mas não será esquecido por quem teve o privilégio de conhecê-lo e de admirá-lo por sua luta diária numa sociedade preconceituosa e excludente:

UM TIPO INESQUECÍVEL

POR SÍlVIO LANCELLOTTI

Criada em 1922, a revista "Seleções do Reader's Digest", até hoje publicada em mais de 70 países, ostenta uma rubrica que sempre me fascinou: "O Meu Tipo Inesquecível".

Pessoas várias enviam textos a respeito de outras que, de alguma forma, encantaram os seus destinos.

No começo de 2010 eu o elegi meu tipo inesquecível assim que o ano que acabou.

Trata-se de Frederico Marcondes de Carvalho, nascido em Santos, em março de 1981, que produziu o "Pontapé Inicial", o programa matinal do qual, eventualmente, eu participava no canal ESPN Brasil.

Filho de um neurologista e de uma enfermeira, por incrível que pareça, Frederico padeceu no parto.

O cordão umbilical se enrolou no seu pescoço e praticamente o enforcou.

Por falta do oxigênio crucial, se tornou um deficiente físico, na sua mobilidade e na sua fala.

Deficiente? Absolutamente, não.

À parte o fato de ele torcer para o "Peixe", em que fulgurou um certo Pelé, que Frederico jamais viu jogar ao vivo e em cores.

Um absurdo de inteligência e de criatividade, ele aprendeu, nas suas palavras, "a aceitar o fato de ser diferente".

Completou, em escolas convencionais, o curso colegial. E se diplomou em jornalismo.

Na faculdade, mesmo com todas as dificuldades de dicção, conduziu um programa de rádio no qual alinhavou entrevistas inesquecíveis com Mário Soares, líder político de Portugal, com o presidente Fernando Henrique Cardoso e com Chico Buarque.

O esforço e o sucesso cativaram José Trajano, diretor da ESPN, que lhe abriu um espaço, em 2004.

Apaixonado por música, dono de uma vasta coleção de CDs de todos os estilos, da MPB ao fado, do jazz ao tango, ele foi responsável pela trilha sonora que escolta o "Pontapé".

Do chefe, recebia broncas, quando escorregava, como qualquer funcionário da emissora. Invariavelmente, porém, respondia com um bom humor cativante.

Emocionava testemunhar o seu esforço e a sua competência.

E saber que Frederico fez aulas de teclado e de canto.

Que Frederico, apesar das dificuldades na fala e na mobilidade, era um jovem aparentemente feliz.

Eu o admirei e admiro sua trajetória, interrompida assim, de maneira tão dura, e compreensível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/