Ainda a mistura das torcidas
Os presidentes dos cinco grandes clubes paulistas conclamaram seus torcedores a ir ao Pacaembu.
Para torcer pelo São Paulo.
Em uma final de Libertadores.
Será que eles foram?
Por ALEXANDRE GIESBRECHT
(Este texto foi originalmente publicado em Anotações Tricolores.)
Mirandinha pertence ao seleto grupo de são-paulinos que marcaram gols em finais de Libertadores, ao lado de Pedro Rocha, Raí (2), Vítor, Gilmar, Müller (2), Amoroso, Fabão (2!), Luizão, Diego Tardelli, Edcarlos e Lenílson, além de dois adversários que balançaram as próprias redes em nosso favor.
(A lista santista tem onze jogadores, a palmeirense, oito e a corintiana, dois.)
Na espetacular foto acima, publicada no Jornal da Tarde, ele demonstra toda a sua alegria pelo segundo gol são-paulino no primeiro jogo da decisão de 1974, no Pacaembu — o Morumbi estava fechado, com seu gramado sendo reformado — , virando o placar em nosso favor. Vê-se, ainda, a alegria da torcida.
A pergunta é: são todos são-paulinos na foto? O mais provável é que sim.
Porém, os presidentes dos quatro outros times paulistas que se consideravam grandes naquele ano tinham conclamado suas respectivas torcidas a não só apoiarem o São Paulo, como também a fazê-lo no Pacaembu.
Os apelos foram feitos na TV Gazeta, na véspera do jogo, e republicados na Folha de S. Paulo do dia seguinte.
Leia-os, ligeiramente editados, para maior clareza (os originais estão disponíveis no sítio do acervo do jornal):
Vasco Fae, presidente do Santos:
"Eu queria convidar… ou melhor, incentivar que a torcida alvinegra, a torcida peixeira, no dia de hoje, já que na festa de despedida de Pelé, no Pacaembu, nós recebemos todas as torcidas… Por isso, hoje, vamos retribuir, levando o nosso apoio ao Tricolor do Morumbi, contra o Independiente. O São Paulo Futebol Clube é o Brasil na Libertadores. Por isso, a torcida deve comparecer, hoje, ao estádio. O São Paulo precisa de sua torcida".
Vicente Matheus, presidente do Corinthians:
"Eu faço um apelo à torcida corintiana e aos esportistas em geral. Hoje à tarde, vamos jogar contra o Botafogo [de Ribeirão Preto, pela primeira rodada do segundo turno do Campeonato Paulista, no Parque São Jorge], portanto, esse jogo termina às [18 horas], mais ou menos. Por isso, faço um apelo à torcida Camisa 12, aos gaviões da fiel, a todos os corintianos, que, depois do jogo, se incorporem, com suas bandeiras, para prestigiar o nosso querido amigo São Paulo Futebol Clube, porque temos muitas amizades na diretoria do Tricolor. No campo, somos rivais e lutamos de ombro a ombro, mas sempre com lealdade. Portanto, torcida corintiana, hoje, o São Paulo, que já é um nome lindo, mais do que isso, é Brasil e precisa do apoio dos corintianos. Pois eu também estarei lá, presente, para torcer com aquela galhardia,aquele entusiasmo, conforme torcemos na última quarta-feira [quando o clube conquistou o "título" do primeiro turno do Paulistão, após ganhar do mistão são-paulino]".
Paschoal Walter Byron Giuliano, presidente do Palmeiras:
"À grande torcida do Palmeiras, peço que levem todas as bandeiras do nosso clube ao Pacaembu. Peço apoio total ao São Paulo Futebol Clube, pois o jogo de hoje é uma festa para o futebol brasileiro. Espero que, nesse jogo contra o Independiente, os palmeirenses compareçam em massa ao estádio, torcendo para o São Paulo. Vão ao estádio. Torçam pelo nosso irmão. O futebol precisa de você, torcedor palmeirense. Leve o seu apoio, leve o seu abraço, à torcida do São Paulo".
Osvaldo Teixeira Duarte, presidente da Portuguesa:
"Nós queremos dirigir a palavra aos nossos associados, da nossa queria Portuguesa de Desportos. A palavra de hoje é uma palavra de ordem. Nós queremos todos os nossos torcedores, na noite de hoje, nesse jogo extraordinário que a cidade aguarda. Estará em jogo o prestígio do futebol brasileiro. O prestígio que nós precisamos recuperar. O prestígio que nós precisamos consolidar. E fica aqui a nossa palavra, o nosso convite, para que você, torcedor luso, compareça, de forma maciça — de forma maciça, repito — , ao Estádio do Pacaembu, na noite de hoje. Precisamos prestigiar o São Paulo Futebol Clube. É necessário levar o nosso aplauso e o nosso calor àqueles que vão defender realmente o futebol brasileiro. Torcedor luso, compareça ao Pacaembu, às 21 horas, pois o São Paulo precisa do seu apoio e o futebol brasileiro, também".
Ainda havia depoimentos de Mário Frugiuele, presidente em exercício da Federação Paulista de Futebol e ex-presidente do Palmeiras, e de Henry Aidar, então presidente do São Paulo e pai do atual mandatário: "O São Paulo Futebol Clube faz questão de adentrar em campo hoje e prestar uma homenagem aos nossos co-irmãos, pela forma como eles se dirigiram à torcida."
Não se sabe quantos dos 51.436 pagantes eram torcedores de outros times, mas havia bandeiras dos outros clubes grandes nas arquibancadas, algo impensável hoje.
Parece pouco provável que muitos corintianos tenham ido ao Pacaembu depois de comparecer ao jogo de seu time no Parque São Jorge, pois a partida em questão terminou aos quinze minutos do segundo tempo, quando houve uma invasão de campo que fez o árbitro Sílvio Acácio Silveira encerrar o jogo. Foi neste jogo em que Rivellino acabaria suspenso por cinco jogos após chutar o bandeirinha Mário Molina.
O São Paulo ganhou o primeiro jogo por 2 a 1 e precisava apenas de um empate no segundo jogo, em Avellaneda. Mas o Independiente venceu a segunda partida por 2 a 0, forçando uma terceira, em campo neutro (Santiago do Chile). Essa decisão ficaria marcada pelo pênalti perdido por Zé Carlos Serrão, e o Independiente levaria a terceira de suas quatro taças seguidas, ao vencer por 1 a 0.
Ou seja, que rivais mais pés-frios nós tínhamos! 😉
Mas, ao menos, eles não ficavam conclamando a fria execução de personagens de Walt Disney.
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/












