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A volta da BWA ao São Paulo

Juca Kfouri

2015-01-20T15:07:00

15/01/2015 07h00

O acordo entre São Paulo FC e BWA, para que esta última volte a operar as bilheterias nos jogos de futebol do clube está em vias de acontecer e será o capítulo final de uma novela engenhosamente montada e representada pelos seus principais atores ao longo dos últimos meses, cuja finalidade, como agora se confirma, sempre foi a de reinserir a BWA nos negócios do clube.

O martelo poderá ser batido no próximo dia 9 de fevereiro, em reunião do Conselho Deliberativo tricolor caso seja bem sucedida a pregação da diretoria sobre a situação das finanças do clube do Morumbi.

A novela começou a ser encenada logo na primeira reunião de diretoria comandada pelo presidente tricolor Carlos Miguel Aidar, dias após a sua eleição.

Na oportunidade, Aidar iniciou a representação que pareceu surpreendente, mas que, agora, tem explicadas suas razões e seu objetivo final.

Então, Aidar anunciou aos diretores presentes, ter sido "surpreendido", após a sua eleição, com existência de uma "enorme dívida bancária" a ser suportada pelo São Paulo.

Já naquela oportunidade, chamou a atenção de diretores presentes o fato de Aidar, tendo feito toda campanha como candidato da situação, se dizer "surpreendido", "estarrecido" e "profundamente assustado" com uma situação que, além de parecer a todos absolutamente administrável, não seria possível desconhecer a alguém que, apesar de ter estado fora da vida do clube nas últimas duas décadas, ao menos estivera diariamente presente, freqüentando a sala da presidência, nos últimos oito meses.

Em março de 2014, um mês, portanto, antes da eleição de Aidar, em reportagem com o título "Após quatro anos, São Paulo supera a renda do Corinthians em 2013", o diretor financeiro Osvaldo Abreu, fez a seguinte avaliação da situação e da gestão do São Paulo nos últimos anos: "Teve a venda do Lucas que foi muito bem-vinda. Seria bom que tivesse uma a cada ano. Mas também houve uma boa gestão, em marketing, contratos de TV e o próprio estádio. O clube está bem administrado", afirmou o diretor financeiro são-paulino, como se pode ler em nota de Rodrigo Mattos, em seu blog aqui no UOL, de 28 de março do ano passado.

De repente, não mais, um ou dois meses após tal declaração, o mesmo diretor, confirmou aos seus pares de diretoria a fala de Aidar, pela qual o presidente acusou o próprio Osvaldo Abreu de "lhe ter omitido", durante a campanha, a "real situação financeira do clube" que, na sua visão, "era grave, especialmente no que tange à dívida bancária".

Mesmo assim, Aidar manteve Osvaldo Abreu no cargo que ocupara durante toda a gestão anterior.

O importante era massificar a idéia da "enorme dívida" para alarmar a coletividade são-paulina – diretores, conselheiros, torcida – de modo a pavimentar o terreno para a realização de um negócio, que, pelos parceiros, procedimentos e cifras envolvidos é, este sim, absolutamente assustador e que deve resultar na voltada BWA, que por mais de uma década operou as bilheterias do Morumbi e que, em 2008, teve encerrada seu contrato.

A novela deveria seguir seu roteiro que previa uma investida de Aidar à mídia, utilizando-se da poderosa máquina de comunicação e marketing com a qual aparelhou o São Paulo, com o objetivo principal de cuidar da sua imagem pessoal e dos negócios que pretende realizar, para propagar a idéia da "situação financeira caótica", cujo fator principal seria a tal "enorme dívida bancária", que tornava o Tricolor "inadministrável".

Antes da solução mágica era preciso quebrar resistências.

Para alcançar seus objetivos, Aidar não hesitou em atacar a figura do seu antecessor, Juvenal Juvêncio, traindo publicamente alguém que chamava de "amigo de mais de 30 anos" e que foi, sem dúvida, o principal apoiador em sua corrida à presidência. Sem o menor constrangimento, Aidar, a despeito de ter mantido mais de 70% dos diretores da gestão de Juvenal, imputou ao seu antecessor a "responsabilidade" pelos alegados problemas financeiros.

Todavia, o caminho encontrou obstáculos com os quais, por soberba ou desconhecimento, Aidar não calculou enfrentar.

Os primeiros, vindos através de dura, vigorosa e incisiva reação de Juvenal Juvêncio e seus apoiadores fora da Diretoria – e mesmo com a solidariedade velada de alguns de dentro – às críticas de Aidar. Ele jamais esperou que Juvenal tivesse forças e iniciativa para reagir. Porém, Juvenal reapareceu, altivo, saudável e furioso como nunca (ou como sempre) e surpreendeu Aidar com a dureza do seu contra-ataque.

Mais uma vez, Aidar teria de adequar os fatos do passado para atingir seus objetivos futuros. Mais uma vez, isso seria impossível, especialmente quando Juvenal Juvêncio apresentou ao público reportagem, como fotos, de reunião havida no Morumbi com as presenças do diretor da Globo Esportes, Marcelo Campos Pinto, de Carlos Miguel Aidar, então candidato à presidência, Osvaldo Abreu como diretor financeiro e do próprio Juvenal Juvêncio, na condição de presidente.

Na reunião, ficou convencionado um adiantamento pela Globo das cotas futuras de TV, no valor de R$ 50 milhões.

Ao final da reunião, Aidar declarou aos jornalistas, textualmente, "esse valor traz um grande alívio para a situação financeira do clube" e também que, com o adiantamento "iria contratar um jogador de nível logo no início da gestão".

Se o adiantamento obtido junto à Globo trazia "grande alívio" em março, como poderia estar a situação financeira "caótica" em abril?

Se se desconhecia a situação financeira, como se poderia assumir publicamente o compromisso de "contratar um jogador de nível logo no início da gestão"?

Iniciou-se, naquele momento, a volta da BWA.

Até porque, nem bem se acomodou na cadeira, Aidar cumpriu a promessa feita no dia da obtenção do adiantamento junto à Globo e, realmente, contratou o prometido jogador de alto nível, o centroavante Alan Kardec, pagando à vista, com dinheiro retirado do caixa do clube (o que é raríssimo nesse tipo de negociação envolvendo clube de futebol) o valor da transferência. Nesse negócio, o valor das comissões aos intermediários também foi pago à vista (o que é ainda mais raro), fazendo com que o valor total do negócio se aproximasse de 20 milhões de reais.

Quem, em sã consciência, desembolsa tais valores, à vista, antes de conhecer a real situação financeira da entidade que começava a administrar?

Mesmo assim, era necessário seguir a execução do roteiro original. O negócio maior deveria ser levado adiante.

Pelo roteiro, o negócio entre São Paulo e BWA deveria ser submetido e aprovado pelo Conselho Deliberativo na reunião de 15 de dezembro passado.

Entretanto, no dia 5 de dezembro, a surpresa foi antecipada pela imprensa: a coluna Painel FC da "Folha de S.Paulo" revelou ao público o conteúdo integral da ideia.

A coisa funcionaria da seguinte maneira: a BWA assumiria a tal "dívida insolúvel" do São Paulo FC., "salvando" o clube e, em contrapartida, a BWA administraria as bilheterias dos jogos de mando do Tricolor pelo prazo de 10 anos, ficando com todas as receitas provenientes da venda de ingressos nesse período.

Surpreendido com a revelação das cenas dos próximos capítulos, Aidar negou a existência de acordo: "De jeito nenhum isso vai acontecer", disse o presidente ao mesmo Painel FC.

A negativa complementaria mais um capítulo da novela, com o título: "Como convencer a todos de que a BWA não é a BWA."

Para tanto, na reunião do Conselho Deliberativo de 15 de dezembro – antecedida pela troca de minutas do contrato entre as partes – a empresa que assumiria a dívida do São Paulo seria a Lagardère, uma empresa francesa.

Como se não fosse possível, como uma rápida pesquisa, constatar que Lagardère é parceira da BWA –que, no caso, para afastar a impressão negativa, seria chamada não de BWA, mas de Ingresso Fácil, o que dá exatamente no mesmo – e que, portanto, seria a segunda a administrar as bilheterias do São Paulo por mais 10 anos.

O roteiro da reunião também previa ações concatenadas e precisas para preparação ao clímax do espetáculo.

Primeiro, seria aprovado o orçamento de 2015, apontando uma previsão de agravamento da situação atual. Esse quadro implicaria clima de apreensão entre os conselheiros, o que permitiria ao cartola surgir, heroicamente, em seguida, com a solução mágica.

O Conselho, assustado pela campanha de alarmismo feita ao longo de meses e especialmente naquela reunião, aprovaria o plano e o aprovaria.

Só que não.

Na reunião do Conselho, após a aprovação do orçamento, mas antes de o presidente ter a oportunidade de aparecer com a solução surgiu o obstáculo maior já colocado diante da atual diretoria do São Paulo nesses poucos meses de gestão.

A partir de questionamentos feitos por conselheiros ligados a Juvenal Juvêncio, foi desvendado o acordo celebrado entre o São Paulo e Cinira Maturana – qualificada na reunião como mulher de Aidar por diretores da gestão em curso – por meio do qual o clube pagaria 20% de comissão sobre todo e qualquer negócio que fosse trazido por ela.

Primeiro houve espanto geral. Os conselheiros se cutucavam atônitos, como que perguntando ao colega do lado "por favor me explique o que está acontecendo".

Depois, o clima da reunião esquentou muito, com as perguntas sobre o tema sendo respondidas por um presidente atônito.

Visivelmente abalado pela revelação de algo que, ao que parece, não deveria ter sido colocado às vistas do Conselho – ao menos, não naquele momento – Aidar tentou explicar que "uma namorada antiga, da década de 90, teria, há seis meses, voltado a ter relação com ele e que, ao mesmo tempo, o São Paulo mantinha com essa senhora um contrato de intermediação que lhe renderia 20% sobre todos os negócios trazidos ao clube.

Tal contrato jamais havia sido submetido ao Conselho Deliberativo do São Paulo, o que seria obrigatório pelo estatuto tricolor.

A reunião foi encerrada, sob grande tensão, não sem antes Juvenal Juvêncio exigir que Carlos Miguel Aidar que não mais pronunciasse seu nome.

Aidar se comprometeu a atendê-lo.

E o negócio entre São Paulo e BWA não foi submetido ao Conselho Deliberativo.

Mesmo assim, Aidar ainda insiste em realizar o negócio com a BWA.

É imperioso presumir o quanto se poderia cobrar de comissão sobre o valor dessa chamada "enorme dívida bancária". Ainda mais se o valor da comissão fosse calculado como base na contrapartida, ou seja, sobre o cálculo dos 10 anos das receitas de bilheteria.

No São Paulo que "paga comissão de 20% a qualquer um que traga qualquer negócio ao clube", como disse o presidente em entrevista coletiva no dia seguinte ao aparecimento de Cinira Maturana na imprensa, no São Paulo que faz, ou deixa de fazer, negócios por causa da comissão, como disse a PUMA – com a responsabilidade de uma empresa alemã desse porte – o tema "comissões" no âmbito do negócio entre São Paulo FC e BWA assume importância fundamental e pode ter motivado meses e meses de encenação.

Em 27 de dezembro, portanto nos estertores do ano, com a maioria das pessoas com menor acesso à informação, a diretoria do São Paulo confirmou ao Blog do Perrone as negociações com "Ingresso Fácil" e sua "parceira francesa" para trocar a administração e exploração das bilheterias do clube pelo pagamento da dívida bancária.

O nome BWA seguia sendo, quanto possível, camuflado, como se o mercado não soubesse que Ingresso Fácil e BWA têm na família Balsimelli os mesmos donos.

É assustador constatar que uma parceria tão arriscada, pelos participantes e pelo valor das receitas envolvidos, seja levada adiante.

• Considerando que a média de renda do São Paulo com bilheterias nos últimos quatro anos chega a aproximadamente R$ 22 milhões de reais, no prazo de 10 anos o valor de tal receita (sem qualquer forma de correção ou atualização) atingiria o valor de R$ 220 milhões.

• Quais serão os mecanismos de controle do São Paulo sobre a BWA para que a empresa informe corretamente a arrecadação das bilheterias pelo prazo de 10 anos, de modo a que se possa verificar de houve equivalência na contraprestação de cada uma das partes no negócio?

• Haverá comissão para Cinira Maturana ou algum outro intermediário pelo negócio? Considerando que o valor da comissão seja calculado à base de 20% sobre o valor da dívida, estimando a tal dívida bancaria em 150 milhões de reais (para fins de cálculo), o valor da comissão devida à "mulher do presidente" atingiria o montante astronômico de 30 milhões de reais!

Porém, se o valor do negócio, para fins de pagamento de comissão, for calculado com base em 20% da contrapartida devida pelo São Paulo, considerando a média de receitas anuais de bilheteria projetada em 10 anos (tudo sem atualizações), as receitas de bilheteria do São Paulo FC atingiria 220 milhões de reais, o que renderia uma comissão de 44 milhões de reais.

Portanto, o que se verifica é que há dezenas de milhões de motivos para que os atores da fábula da dívida bancária se esforcem muito, como têm realmente se esforçado, para chegar ao seu "final feliz", trazendo de volta a BWA ao São Paulo, por dez anos, mediante o pagamento de polpudas comissões.

O deficit de 70 milhões reais apresentado ontem por Aidar deve ter sido o lance final para convencer o Conselho Deliberativo a endossar a volta da BWA e fazer a alegria da família Balsimelli, não necessariamente a da família são paulina.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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