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Datas Fifa e seus prejuízos para todos

Juca Kfouri

2008-10-20T14:13:03

08/10/2014 13h03

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POR PAULO ANDRÉ, do BSFC

Este ano perceberam – com um pouco mais de destaque do que nos anos anteriores – a desgraça da não paralisação do Campeonato Brasileiro durante a DATA FIFA.

Chovem reclamações de dirigentes e treinadores, todos lamentando seus desfalques em um momento tão delicado da competição.

Pior, sofrem os torcedores que não poderão contar com a luta e as maravilhas de VINTE E CINCO dos seus principais jogadores (convocados) nas partidas decisivas das 26º e 27º rodadas do campeonato nacional.

Na contramão do bom senso, surgem as desastrosas declarações da CBF. "Todo mundo questionava que antes não tínhamos jogadores que atuam no Brasileiro na Seleção, agora questionam se isso é bom".

Claro que é bom. Mas fazê-los desfalcar suas equipes neste momento chega a ser estúpido. A CBF precisa entender que a questão não é se deve ou se não deve convocar jogadores que atuam no Brasil, a questão a ser respondida é se ela deve ou não permitir que esse conflito de jogos ocorra no calendário nacional.

"Quem não quiser que seus jogadores sejam convocados que mande uma carta oficialmente para a CBF", disse Dunga falaciosamente, tentando se livrar de ter que criticar o calendário e o patrão. E Marin foi ainda mais longe, "Precisamos estar focados no principal objetivo que é a Copa", sem nem fazer ideia de que só chegaremos bem à próxima Copa se o nosso futebol interno melhorar seu nível em todas as suas dimensões.

Aliás, ao se convocar Robinho e Kaka – ídolos e merecedores de tudo o que conquistaram, inclusive desta convocação – que chegarão a 2018 com 34 e 36 anos de idade, respectivamente, seria mesmo a Copa o principal objetivo desta convocação?

Os presidentes de clubes têm reclamado publicamente da "injustiça" ou do "prejuízo", apesar de saber que foram eles próprios que aprovaram e assinaram o regulamento do campeonato e seu horroroso e conflitante calendário. Será que eles não o leram, será que se fingiram de cegos para evitar um atrito com a "ditadura" da CBF/TV ou será que não contavam com a convocação de seus atletas? Qualquer uma das respostas será vergonhosa, deixe pra lá!

Então tudo o que têm sido feito até agora não passa de teatro. Se os presidentes de clubes quiserem realmente mudar essa realidade, devem se reunir e começar a pensar no ano que vem, cujo cenário (calendário divulgado pela CBF para 2015) se apresenta ainda mais calamitoso.

Só há duas saídas: Aceitar e assinar o calendário proposto pela CBF para 2015 e parar de reclamar, ou discutir, de uma vez por todas, uma reforma do calendário do futebol brasileiro, doa a quem doer.

PREJUÍZOS AMPLOS, GERAIS E IRRESTRITOS

Aos que preferem ficar em cima do muro à discutir o calendário, faço a conta de padaria que fiz para Alexandre Kalil (presidente do Galo) no ano passado, na sede da CBF, quando o Bom Senso foi recebido por lá:

"Quanto você paga por jogo ao jogador X (salário dividido pelo nº de jogos) e quanto você perderá se ele for convocado nas 10 Datas FIFA + Copa América de 2015? Ótimo, agora se você tiver dois jogadores (e naquela época o Atlético tinha três ou quatro convocados regularmente), seu prejuízo será colossal. É necessário montar três elencos, gastar uma fortuna com a folha salarial para tentar não sofrer com as baixas (lesão ou convocação) e com a queda de rendimento da equipe que certamente ocorrerá pela elevada quantidade de jogos que vocês terão pela frente…".

Outra coisa que pode ajudar o raciocínio de quem pretende analisar o assunto também aconteceu naquela mesma reunião.

O holandês Clarence Seedorf tentou explicar para o Marin e para o Marco Polo que esse problema (desfalque dos principais atletas nas Datas Fifa) gerava um desequilíbrio esportivo importante que influenciava diretamente a classificação final do campeonato. Em consequência, enfraquecia o produto, tirava sua credibilidade, afastava o dinheiro do futebol e o público dos estádios. A fala foi feita num português perfeito, mas soou tão "gringa" aos ouvidos atentos dos dois senhores que até hoje eles devem se perguntar que diabos aquele holandês quis dizer.

Apesar disso, ainda há os que "acreditam", por preguiça de raciocinar, que jogar mais representa, simplesmente, uma maior arrecadação aos clubes. Se a receita é maior por que se joga mais, não se deve esquecer de calcular que o gasto também é muito maior pelo mesmo motivo – especialmente pela falta de planejamento na montagem dos elencos que chegam a contar com 35 ou 40 atletas e pelo altíssimo custo das novas arenas no "Match Day" (o resultado operacional dessas arenas durante os campeonatos estaduais será desastroso, quem viver verá).

A questão já está batida, discutimos com a Globo, com os clubes e com a CBF, mas ninguém quis enfrentar o problema.

A TV não quer mexer com as Federações/CBF e seus estaduais; os clubes não querem mexer com a TV e seus adiantamentos.

Um está preocupado somente com quanto paga, o outro com o quanto recebe e o terceiro está preocupado em não ser incomodado por ninguém. E assim eles equilibram os pratos entre si, numa técnica de malabarismo que chega a invejar qualquer artista circense.

Definido por A + B + C que desse mato não sairá cachorro, me pergunto, quem, além do torcedor, está perdendo com isso?

O futebol brasileiro, evidente.

Mas sem um verdadeiro interesse destas três partes, como fazer para reformar o futebol brasileiro? Quem mais poderia exercer pressão por essa mudança?

A última esperança são os patrocinadores que têm comprado um produto inteiro e têm levado para casa outro pela metade.

A Globo ainda consegue com que cada um dos seus seis patrocinadores pague anualmente R$ 225 milhões pela cota de patrocínio do futebol na TV, mesmo perdendo 10% de audiência a cada ano. Enquanto pagarem calados, não haverá muito o que fazer.

Três deles (Ambev, Itaú e Vivo) se precaveram e decidiram patrocinar tanto o Brasileirão quanto a Seleção e pagam duas vezes (a conta) para evitar perder os craques em campo.

Se não jogam nos clubes, estão jogando pela nação. Mas o que teria a nos dizer a GM, a Johnson&Johnson e agora, para 2015, o Magazine Luiza, além, é claro, de todos os patrocinadores dos clubes que têm tido e terão uma exposição muito menos atrativa do que a que poderiam ter, especialmente nas numerosas Datas FIFA?

O preço final pago pelas empresas tem relação com a média geral do Ibope (dos anos anteriores) durante as transmissões dos jogos, e não com a qualidade do espetáculo apresentado durante o ano vigente.

Porém a queda da audiência e do interesse do público na última década, além de justificada por outros fatores externos (como a internet, a violência, etc), tem relação direta com a queda da qualidade do espetáculo, especialmente se comparada aos principais campeonatos europeus.

Será que essas empresas já contabilizaram no valor pago, além da queda de 10% de audiência no ano vigente, esse "conflito de interesses" entre os jogos/campeonatos e a disputa pelo espaço na mídia com os outros 12 patrocinadores da Seleção?

Se a resposta for sim, são os clubes que devem ir à luta pois aumentarão significativamente suas arrecadações ao brigarem (com a CBF) por "exclusividade" da exposição de suas marcas, de seus patrocinadores e de seus "produtos" (os jogadores) nos dias de jogos.

Se a resposta for não, os patrocinadores estão comprando gato por lebre e devem ir a luta pelo mesmo motivo.

De certo mesmo, só duas coisas. A primeira é que o torcedor não terá desconto no preço dos ingressos nas duas próximas rodadas do Brasileirão, mesmo sem poder contar com os 25 craques (convocados) que desfalcarão suas equipes.

E o segundo é que eu vou a Pequim assistir a Seleção e levarei junto comigo o meu cartaz: "Democracia na CBF, já", pois o dia em que pudermos votar, essa indiferença às questões técnicas do futebol brasileiro acabará!

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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