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O massacre do Mineirão

Juca Kfouri

08/07/2014 18h49

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O número 20 estava também na camisa de Amarildo, na Copa de 1962, mas não foi por isso que Felipão optou por Bernard e não por Willian, como era mais cogitado.

Bernard não só estaria em casa no terreiro do Mineirão onde manda no pedaço como, ainda por cima, diferentemente do brasileiro do Chelsea, era alguém que o técnico alemão desconhecia.

Quando o nome do menino de alegria nas pernas foi anunciado o estádio aplaudiu até mais que a David Luiz e o aclamou em coro por quase um minuto.

Um ano de exílio na Ucrânia depois, Bernard estava diante de mais um jogo decisivo em sua vida como, em julho do ano passado, diante do paraguaio Olimpia, na final da Libertadores que, é claro, para o torcedor do Galo, foi ainda mais importante.

Executados os hinos, o coração quase saiu pela boca e os alemães disfarçados de rubro-negros esbanjavam confiança no gramado.

Oito títulos mundiais somados, os pentacampeões em busca de sua oitava final e os tricampeões também.

Para um jogo que os alemães temiam violento, a primeira falta aconteceu aos 7, feita por Klose na área brasileira e a segunda, um minuto depois, também foi alemã, como a terceira, aos 9.

Mas, aos 10, o primeiro gol também foi alemão, quando Thomas Muller apareceu sem marcação na cobrança de escanteio para apenas escorar com o pé para a rede brasileira.

Uma ducha de água gelada proporcionada pela frieza germânica que não se abalava com a gritaria do Mineirão.

Só aos 13 Marcelo fez a primeira falta brasileira.

Bernard não pegava na bola, Fred idem e Hulk e Oscar não acertavam um passe.

A defesa tinha de se virar e dar chutão.

Marcelo simulou um pênalti, Boateng cobrou e quase o tempo fechou.

Cada contra-ataque alemão era um deus nos acuda e Klose fez 2 a 0, com facilidade, aos 22, para se tornar o maior artilheiro das Copas no estádio em que Ronaldo apareceu para o país.

Estava fácil, extremamente fácil.

Aos 23, Kroos fez 3 a 0 da entrada da área e no minuto seguinte fez 4 a 0, em bola roubada de Fernandinho.

Era um massacre impensável, para vingar 2002 com juros e correção monetária como se dizia antigamente.

O céu mineiro estava carrancudo e a torcida alemã cantava suas marchas alegremente.

O quinto gol veio ainda aos 29, com Khedira.

O melhor que a CBF poderia fazer era pedir à Fifa para acabar o jogo ali mesmo, sem nem terminar o primeiro tempo.

Parecia um jogo de adultos contra crianças.

O mundo passaria a clamar que Felipão errou, que deveria jogar com três volantes, tudo que os brasileiros jamais gostaram.

Nunca jamais o futebol brasileiro vivera humilhação semelhante, nem mesmo recentemente quando o Barcelona triturou o Santos.

E o primeiro tempo não acabava.

Implacáveis, os alemães não refrescavam e punham os brasileiros na roda.

Verdade que já fazia nove minutos que eles não faziam nem sequer um golzinho.

Argentina ou Holanda, quem os alemães vão enfrentar no dia 13 no Maracanã?

E com o que restou dos brasileiros, como enfrentar uns ou outros no dia 12, no Mané Garrincha?

Ufa, o primeiro tempo acabou!

Cinco vira 10 acaba?

Nada disso, pois a Seleção que saiu e voltou a campo sob vaias, quis mostrar dignidade e voltou com Paulinho e Ramires nos lugares de Fernandinho e Hulk.

Foi aí que se viu como seria mesmo duro fazer gol nos alemães, tal a sucessão de grandes defesas de Neuer.

A torcida alemã cantava "Rio de Janeiro, Rio de Janeiro" e a brasileira mandava da presidenta da República ao centro-avante Fred tomar no c…

O segundo tempo era até agradável e equilibrado, atrapalhado, no entanto, por dois motivos: sua inutilidade e o gosto de cabo de guarda chuva na boca de cada um dos brasileiros presentes ao Mineirão e pelo país afora.

Aquele vexame evitado que seria a desclassificação precoce reapareceu "em todas as suas emoções" na goleada impiedosa.

Porque o 6 a 0 veio aos 25, dos pés de Schuerrle, para Willian entrar no lugar de Fred.

Bem que no ônibus brasileiro a Fifa escreveu: "Preparem-se, o sexto vem vindo!". Veio mesmo. E diante de 58 mil torcedores perplexos, porque nem mesmo os cantantes germânicos acreditavam no que viam, tamanha a facilidade.

O 7 a 0 também veio, dos mesmos pés que fizeram o sexto gol.

E começou um interminável olé saudado por quase todos no Mineirão, interrompido pelo solitário gol de Oscar: 7 a 1.

Sem comentários.

Notas:

Quaisquer notas, mas uma só, do presidente ao roupeiro: ZERO!

Como ser diferente?

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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