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Blog do Juca Kfouri

Os chorões do Brasil

Juca Kfouri

30/06/2014 11h17

POR MARCIO ZAPATISTA

Estamos nas quartas-de-final, e como um quadro impressionista, a seleção vai pincelando com traços tortos e cores vibrantes as suas vitórias. E vence de goleada, vence até quando empata. Vence porque não é impulsionada por vontades humanas, e sim, animada por forças maiores do universo, pelos deuses do futebol.

Estas mesmas divindades que em 50 erraram feio, decepcionando e calando seus devotos mais fiéis. Em razão disso, hoje, brotam do asfalto profetas do ateísmo rugindo prenúncios de mais uma avassaladora derrota da Seleção. "O time não tem meio campo!… Com Fred no ataque, a seleção joga com um a menos!… Nosso goleiro joga no Canadá; e por acaso existe futebol no Canadá?…"

Esses monarquistas órfãos; sebastianistas do futebol, deitados eternamente em berço esplêndido, ficam à espera de um novo rei, de um cavaleiro de armadura reluzente e espada em riste, de um herói que venha a lhes salvar da perdição de um futebol de ressaca.

Não aceitam a beleza de um escrete de plebeus, sem gênios, nem heróis, nem reis, sem garrinchas.

Querem um caminho fácil como um toque de calcanhar de Sócrates, repleto de flores das vitórias incontestes, e perfumado pelas goleadas retumbantes. "Devemos ser os melhores!… Temos que mostrar ao mundo o futebol arte!…"

Amigos, o que seria das grandes tragédias gregas se fossem escritas por esses pobres-profetas ressentidos?

Não passariam de contos da carochinha, a Ilíada seria igual ao Harry Potter, e a Odisseia teria o mesmo enredo de Tom e Jerry.

Me digam qual é a graça em ser o melhor e vencer?

Isso tinha seu valor lá atrás, quando ninguém sabia muito bem quem eram aqueles belos e mágicos vira-latas de amarelo.

Mas agora? Agora não! Agora somos o país do futebol, a terra abençoada de onde brotam os craques e florescem os dribles desconcertantes.

Então, apenas para confundir a certezas dos "idiotas da objetividade, as divindades da bola colocam em campo um Brasil opaco, que chama mais a atenção pelas lágrimas que seus jogadores vertem do que pela sua classificação para a próxima fase do Mundial.

"Estão abalados psicologicamente!… Estão amarelando!…" Gritam em cada esquina os arautos do pessimismo, essas almas embrutecidas de corações amargos e olhos ressequidos.

Não são capazes de enxergar o óbvio.

Thiago Silva e Neymar choram durante a execução do hino nacional? Júlio César chorou após voar como um pássaro e defender dois pênaltis? Meu deus!, e quem não chora depois de presenciar um milagre?

Ouso mais uma vez ressuscitar Nelson Rodrigues para dizer que, quem não chorou lágrimas de esguicho após a última cobrança na trave do chileno Jara, é um mau-caráter.

Se for verdade que Deus escreve certo por linhas tortas, caramba, nunca vi escrita tão certa em linhas mais oblíquas.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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