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Blog do Juca Kfouri

Até agora, Copa excepcional

Juca Kfouri

21/06/2014 02h14

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Para mim, o que aconteceu até agora nessa Copa do Mundo 2014 poderia se caracterizar dizendo que o futebol voltou talvez um pouquinho para as suas origens, é mesmo uma "caixinha de surpresas".

Aqui no Brasil, o futebol está sendo como era antigamente, mais imprevisível (#), cá e lá,lá e cá, pura emoção, surpreendente, com placares esquecidos do passado, com vitórias de virada, onde grandes campeões caem na 1ª rodada, onde pequeninos ganham de gigantes, onde o ambiente é de festa e carinhosamente latino.

Aqui no Brasil, me parece que o futebol perdeu um pouco da lógica fria que vinha assumindo, onde os mesmos de sempre saem das chaves (construídas para isso), onde os grandes (tipo Espanha, Itália) conseguem sempre segurar o (seu) jogo, onde os esquemas táticos se mantém disciplinadamente, onde os gols saem a conta-gotas, onde o cálculo de pontos manda no jogo e vence a alegria do improviso.

A explicação emocional para isso é que somos o país do futebol e que soprou um espírito de Mané Garrincha e de pelada no exato momento em que se pensava que o futebol profissional de alto nível tinha virado algo mais cerebral combinado com exemplar preparo físico e taticamente convergindo para um padrão global homogêneo, que vemos todos os anos na UEFA Champions League.

Se eu fosse arrogante, eu diria que soprou um espírito do nosso campeonato, o Brasileirão, onde o lanterna pode ganhar do líder, onde o campeão num ano é rebaixado no ano seguinte, onde há jogadas de gênio e lambanças de doer.

Alta volatilidade (veja a alternância de líderes), grande variância, oscilação da performance, coisa de vira-lata, a tradicional falta de coerência de nós subdesenvolvidos, etc.

A outra explicação, racional, é simplesmente que: (1) calhou pelo sorteio de chaves de termos um grupo da Morte especial com três grandes times de tradição e um quarto time de excelente nível que transformou tudo em jogo decisivo;

(2) há um nivelamento para cima dos jogadores, quase todo esse pessoal joga precisamente na Europa, se conhece bem;

(3) havia já há algum tempo uma maneira cada vez mais conhecida de vencer o esquema (hispano-holandês) de toque, carossel, e posse de bola que dominou o futebol nos últimos dez anos; (ironicamente quem inventou o futebol da Espanha moderna foi o Johan Cruyff no Barcelona, o esquema vencedor que a sua própria Holanda acaba de enterrar);

(4) o estado físico dos jogadores depois da temporada européia não permite a repetição de uma boa performance duas vezes seguidas num curto espaço de tempo (5-6 dias) o que explica a queda na qualidade dos segundos jogos da Holanda e da Itália; ironicamente, quanto melhor o jogador, mais ele jogou na Europa nos times da UEFA e mais exausto ele se encontra; e finalmente,

(5), viajar no Brasil para um time não é viajar na Europa; aqui cansa mesmo e quando vc de Porto Alegre ou São Paulo com 15 graus e chega nos 35 graus de Manaus, Fortaleza ou Natal, a adapatação é muito mais difícil.

Somando as explicações racionais e as outras, a estatística é realmente estranha e não mente: a média de gols dessa Copa até agora é surpreendentemente uma volta ao passado, 1970 para ser exato.

E é uma ruptura em relação ao que parecia lei de ciência exata: a inexorável tendência das defesas melhorarem, física e taticamente, a maior dificuldade de atacar, e assim sendo a queda na produtividade em gols das Copas, veja a tabela abaixo.

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(*) até hoje 20 de Junho, depois de 26 jogos (40% dos jogos)

Ironicamente, a seleção que está jogando mais friamente, à la Européia, é a nossa.

A torcida menos animada é a nossa (por motivos óbvios, boa parte dos hermanos latinos, colombianos, costa-riquenhos, chilenos, equatorianos, etc. que compraram tickets nos EUA e vieram com pacotes baratos de lá, são mais povão mesmo; enquanto a nossa torcida aqui parece mais Lago Sul, Higienópolis, Ipanema, etc., sem demérito nenhum, apenas uma observação socio-econômica).

E a seleção que está mostrando (até agora) mais sangue latino, garra, não é nem a nossa querida rival argentina mas a não menos querida Província Cisplatina com o seu artilheiro herói, Luisito Suarez, que poderá até ser o nosso futuro carrasco.

Ou seja os Deuses do futebol estão nos preparando uma bela festa surpresa, e até agora estamos nos appetizers.

E o Brasil? Eu, mais uma vez, discordo dos profetas de mau agouro e da maioria de jornalistas e comentaristas sobre o Brasil.

A seleção jogou bem contra o México, o placar correto deveria ter sido 2 ou 3 a 0.

Não foi sensacional mas foi uma melhora em relação ao jogo contra a Croácia.

O Brasil dominou completamente o primeiro tempo e quase todo o segundo.

Teve claras oportunidades de gol, com grandes milagrosas defesas do goleiro mexicano somadas a falta de sorte nossa.

O nosso time teve uns 15-20 minutos no começo do 2º tempo de precipitação, quando se deu conta que os nossos volantes não criavam e passou a pular o meio e enfiar chutão para um Fred inoperante.

Mas vejam vcs que o Felipão dá uma conversada na beira do campo com o Marcelo, bota ele atuando mais pelo meio e o time dá uma boa melhorada.

Entendo que é difícil agora o Felipão se desfazer do esquema dele totalmente, mas pode fazer algumas mudanças que acho que poderiam dar certo: deveria botar o Marcelo para virar nosso armador, com Maxwell na lateral e tirando Paulinho; poderia também tirar o Fred e escalar o Jo (não é sensacional mas é melhor).

Se for para ser mais audacioso: Hulk na frente no lugar de Fred (mas nunca vi o Hulk cabecear) e um outro armador em boa fase como o Willian ou o Fernandinho no lugar do Paulinho.

Não estamos segurando o jogo o suficiente no meio e estamos sem penetração e enfiada de bola mas temos uma defesa sólida, Thiago e David são muito bons, o Dani Alves ficou mais atrás, o México só chutou de longe, sem problemas para o Júlio César.

E ah, sim, temos o Neymar!

Não vamos vender a pele de Camarões antes do tempo mas não vejo problemas enormes em ganhar deles e aproveitar para arrumar mais esse time, nessa linha de mudanças marginais e cumulativas.

Ao contrário de outros, nosso time está bem fisicamente e crescendo na competição, estamos vivos e não é um jogo da morte como será Itália vs Uruguai.

O nosso grupo é forte sem ser da Morte e sem ser tampouco a moleza dos grupos da Argentina ou da França.

Vamos ver a Alemanha, não dá ainda pra saber se vai ter a consistência da Costa Rica (sic!) ou a falência da Itália.

E depois? A sequência lógica (mas essa Copa, como disse no começo é tudo menos sequencia lógica) seria Chile nas oitavas, Uruguai ou Colombia nas quartas e depois ainda França ou Alemanha na semi até chegar a Argentina ou Holanda na final.

Pode dar certo, como obviamente podemos sair de novo antes do fim.

Acho que os únicos dois pontos que não podemos ficar lamentando se formos eliminados será de não ter corrigido duas coisas óbvias para pelo menos tentar:

(1) fisicamente, tecnicamente o nosso Fred não está à altura, é melhor sair; (

(2) não dá para termos dois meias encolhidos e em má fase ao mesmo tempo, Oscar e Paulinho; escolhe um para sair e aí eu tiraria Paulinho mesmo, aproveitando o jogo contra Camarões para dar nova cara ao time.

Vamos ver, temos todos os nossos fregueses (Chile e Itália) e fantasmas (Uruguai e França) na nossa parte da tabela até a final.

E se chegarmos lá deverá ser Argentina ou Holanda.

Melhor que isso não existe. Haja coração!

(#) Aliás a imprevisibilidade começou na "crônica de uma catastrofe anunciada" que não aconteceu. Não houve nenhum grande atraso, os estádios, aeroportos acabarem saindo, claro, à brasileira, na última hora, mas sairam. Manifestações, sim claro, mas sem a dimensão de explosão social que se temia.

*****DE UM MODESTO LEITOR DO BLOG QUE PREFERE O ANONIMATO

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/