Blog do Juca Kfouri

Dois 1os. de Maio antagônicos

Juca Kfouri

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Um, em 1979, foi apoteótico.

O outro, em 1994, trágico.

O primeiro, 35 anos atrás, no estádio da Vila Euclides, cujo nome mudou para 1o. de Maio, em São Bernardo de Campo.

O segundo, há 20 anos, no circuito de Imola, na Itália.

No ABC paulista, mais de 100 mil trabalhadores davam o recado que a ditadura se tornara insuportável.

Eu era diretor do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo e fui designado como um dos apresentadores das solenidades que precederiam o apoteótico discurso de Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo de Campo.

(Nove anos antes, no dia 3 de junho de 1970, estreia da Seleção Brasileira contra a da Tchecoslováquia na Copa do México, não pude festejar a goleada por 4 a 1 porque soube que meu compadre, Norberto Nehring, havia sido morto pela polícia da ditadura, chefiada pelo torturador delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Prometi, então, para mim mesmo, que o mataria, arroubo indignado e dolorido de um jovem de 20 anos).

Eis que quando me preparo para anunciar uma dupla sertaneja que animaria a festa na Vila Euclides, alguém me toca nas costas e avisa que eu deveria anunciar a morte de Fleury, afogado em Ilha Bela.

Peço silêncio para um anúncio importante, faz-se o silêncio e anuncio a morte do torturador.

O estádio explode em aplausos.

Freudianamente eu acabara de cumprir minha promessa.

Sim, era uma morte festejada.

A de Ayrton Senna, 15 anos depois, ao contrário, foi das mais choradas da História do Brasil.

Que a viu pela TV.

Estivera com Senna apenas uma vez, numa festa da revista “Placar”, que então dirigia, quando lhe entregamos o troféu de “Esportista do Ano”, eleito pelos leitores, em 1985.

Ele era o campeão britânico da Fórmula 3 e mudara o nome do circuito de Silverstone para Silvastone. Em 85, em seu segundo ano na Fórmula 1, ganhara dois GPs, em Portugal e na Bélgica.

Depois, só voltamos a nos falar em 1994, quando ele me telefonou na redação da revista “Playboy”, que eu passara a dirigir em 1991, para pedir um favor e ouviu de mim, antes do pedido, que ele, Dom Paulo Evaristo Arns e Chico Buarque de Hollanda não pediam, mandavam.

Senna estava apaixonado por Adriane Galisteu que havia feito um ensaio para a revista um pouco antes e ele queria que as fotos não fossem publicadas.

Disse estar disposto a cobrir o que fôra gasto e eu, generoso com chapéu alheio, do dono da Editora Abril, lhe disse que não seria necessário.

Recolhi todas as fotos e as mandei para ele, que estava em Portugal.

No ano seguinte, e eu já não estava mais na revista, como a “viúva de Ayrton Senna”, e com um cachê incomparavelmente maior, Galisteu posou novamente para “Playboy”.

Nunca fui fã de automobilismo, embora seguisse, primeiramente, a trajetória de Emerson Fittipaldi e, depois, as de Nélson Piquet e Ayrton Senna.

Senna, em 1994, vivíamos os tempos de Collor, era dos poucos patrícios que davam alegria ao país, desfilando com a bandeira brasileira a cada GP vencido pelo mundo afora.

No domingo em que morreu, por dessas coisas inexplicáveis, acordei a tempo de ligar a TV ainda na cama e, no minuto seguinte, ver a cena terrível.

Também não sei por quê, acho que ao ver seu pescoço tombar para o lado, exclamei: “O Ayrton morreu!”.

Depois foram horas de agonia até que a triste notícia se confirmasse.

À época eu fazia uma coluna ao vivo no “Jornal da Globo”, quase sempre já pela madrugada.

O corpo do campeoníssimo piloto chegou a São Paulo só na quarta-feira, homenageado por impressionante massa humana entre o aeroporto e a Assembleia Legislativa, onde foi velado.

Ao sair da Globo para ir para casa, era meu caminho passar em frente da Assembleia.

Ao ver a enorme fila em torno do prédio, ali pelas primeiras horas da quinta-feira, alguma coisa que não sei explicar determinou que eu estacionasse o carro e fosse ver aquilo de perto.

Ao chegar na porta da Assembleia, alguém, se dizendo do cerimonial, me pegou pelo braço e quando me dei conta estava sozinho, diante do caixão com o inconfundível capacete do ídolo sobre a bandeira do Brasil.

Desconcertado, eu que não creio, fiquei pelo tempo que me pareceu razoável, preocupado em não ser desrespeitoso nem demagógico.

Mas certo de que estava diante de uma figura única, inesquecível.

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