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Blog do Juca Kfouri

Desculpe-nos, família Herzog

Juca Kfouri

01/04/2014 00h00

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POR ZÉ ROBERTO

Era mais um estádio, o Governador José Fragelli, o Verdão, em Cuibá-MT, que o CR Flamengo inaugurava em 8 de abril de 1976.

Mas dava para perceber, embora não conseguíamos entender, que havia algo no ar além daquele paraquedista que acertou o centro do campo antes da partida.

Trazia junto ao corpo uma enorme bandeira do Brasil.

Perfilados pro Hino Nacional, notamos (Cantarelli, Toninho, Rondineli, Jaime, Junior; Dequinha, Tadeu, Eduzinho – vestia a 10 porque o irmão, Zico, ficara em tratamento no Rio – e eu; Paulinho e Luizinho) que ao lado do Presidente Ernesto Geisel,na Tribuna de Honra, dezenas de quepes se sobressaíam no lugar daqueles cartolas de terno comuns àquelas ocasiões.

E quando entramos em campo, uma faixa foi estendida sem que interpretássemos seu alcance: BRASIL, 12 ANOS DE PAZ E SEGURANÇA.

No aniversário dos 50 anos do golpe militar, queria deixar, como jornalista e ex-atleta profissional de futebol, meu depoimento à Comissão de Verdade.

Fomos coniventes e cúmplices sim, por desinformação, ao apresentar nossa arte em estádios de futebol anestesiando o país enquanto seus filhos informados desapareciam nos porões do DOI-CODI.

Naquele dia, em Cuiabá, com dois gols de Luizinho, aos 5 e aos 19 do primeiro tempo, a maior nação esportiva do país estava em campo desviando a atenção da população ao lado daquela bandeira, das faixas, dos autoritarismo imposto e fardado à repressão aos nossos direitos humanos, à liberdade de ir e vir, votar, assistir Calabar no teatro e Missing no Roxy. De viver e curtir uma nação livre e soberana.

Nas nossas concentrações não havia "Opinião" e "Movimento" para ler, tinha "Placar" e "Contigo".

Nossos professores não eram universitários para nos alertar, eram militares como Claudio Coutinho,Admildo Chirol,Raul Carlesso, Carlos Alberto Parreira entre tantos, todos egressos da Escola de Educação Física do Exército, na Urca, que eram inteligentes, competentes, mas detentores únicos das informações dos avanços sobre a preparação física, a evolução tática mundial, que eram vetadas aos demais civis treinadores como Zagalo, Osvaldo Brandão e, principalmente, João Saldanha.

A última coisa que nos passavam em suas concorridas preleções era sobre a movimentação tática no Calabouço.

Sendo assim, como ser politizados e entender e nos envolver nos protestos naquele momento difícil?

Nossa prisão foi tão triste quanto a da Dilma, nosso exílio foi tão traumatizante quanto o do Brizola, do irmão do Henfil: fomos amarrados em paus de arara de chuteira para desfilar todos os domingos a distrair o povo.

Não recebemos indenização, acreditem, foi muito pior.

A cada dia que uma investigação traz à tona novos depoimentos sobre a farsa do 1 de Maio no Riocentro, lembramos que era no Maracanã que distribuíamos nosso ópio.

Mas ao contrário do Chico e do Gilberto Gil, não nos deixavam saber o que estava acontecendo.

Sendo assim, família Herzog, do Edson Luis, nos perdoem.

Enquanto defendíamos o Flamengo, Corinthians, Grêmio e Atlético Mineiro, ajudamos a aprisionar nossa nação.

Não cobrem mais dos Zico, do Falcão, do Rivelino, de qualquer ídolo da nossa época o mesmo envolvimento de cantores, compositores, do Vladimir Palmeira, do nosso Ulysses Guimarães.

Em 1976, em Cuiabá e em qualquer estádio do Brasil nós realmente não sabíamos por quem estávamos jogando.

Desde 1982 não consigo mais torcer pelo Brasil.

Em qualquer esporte.

Ao trocar os vestiários pelos corredores em ebulição da Gama Filho, onde estudei direito, sabia que meus companheiros da seleção brasileira voltariam da Espanha direto para aquela rampa em Brasília, onde iriam atrasar, com novas doses de ópio, nosso processo de anistia.

As eleições diretas para presidência da república.

Queria os avisar, mas jogava no Americano, de Campos, e Paulo Rossi acabou fazendo isto por mim.

Sei que avançamos na democracia, que estamos diminuindo a desigualdade social, apurando a verdade da repressão, mas trauma é trauma.

Outro dia meus filhos me pegaram torcendo pela Argentina, embora saiba que por lá seus jogadores foram igualmente coniventes.

Mas quando nossa bandeira sobe, toca-se o Hino Nacional, eu me lembro do Geisel naquela tribuna conosco fazendo o papel de palhaços dentro de campo.

Estou procurando ajuda, a Copa está próxima, quem sabe eu consiga?
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Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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