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Quem paga a festa da Fifa? Resposta a Jérôme Valcke

Juca Kfouri

01/03/2014 15h51


*Maurício Costa de Carvalho

A provável desistência da prefeitura de Recife de realizar a Fan Fest – espaço de transmissão dos jogos e shows que desde 2006 tornou-se um dos negócios mais importantes das Copas do Mundo – e os impasses e pendências que podem prejudicar a realização desses eventos em pelo menos seis das doze cidades-sede, abriu um importante debate sobre a pertinência da realização das festas da Fifa.

Ainda que esteja em marcha uma pesada campanha midiática organizada pelo tripé Fifa-Rede Globo-Governo Federal no sentido de se escorar no amplo apelo popular do futebol e da Copa no Brasil para garantir que contratos de realização da Copa pudessem ser cumpridos em sua integralidade, a situação política do país extremamente instável e crítica às contrapartidas que o megaevento tem exigido da população, pode colocar em risco a efetivação de negócios milionários como as Fan Fests.

Fan Fests: um grande negócio para os parceiros da Fifa

Em artigo recente publicado na Folha de S.Paulo ("A festa dos torcedores", 26/02/2014), o secretário-geral da Fifa Jérôme Valcke acusa o golpe. Buscando responder ao irretocável texto do jornalista Xico Sá ("Carta a messiê Jérôme", 22/02/14), Valcke, em primeiro lugar, repete o mantra de que serão extremamente positivos o "retorno de imagem e o ambiente de festa" da Copa e das Fan Fests e que a Fifa sempre quis "incluir os brasileiros no megaevento". Por outro lado, deixa claro que a entidade não hesitará em cobrar as indenizações previstas em contrato, afinal, como "ninguém forçou o Brasil" a sediar a Copa, "ao se informar dos requisitos, as autoridades prontamente concordaram e assinaram os compromissos". É verdade. Faltou dizer que isso não foi combinado com o povo.

Para além da retórica festiva, o que está por trás dos argumentos de Valcke é a garantir que as Fan Fests cumpram a função para a qual foram criadas, isto é, que sejam espaços de alta lucratividade com propaganda. Nas palavras da própria Fifa, o conceito desenvolvido especialmente a partir da Copa de 2010 demonstrou-se "uma ferramenta de marketing muito positiva tanto para a entidade que comanda o futebol mundial quanto para os patrocinadores, reforçando o contato com consumidores em todo o mundo". Para tanto, é necessário reunir a emoção dos torcedores com o futebol em "locais representativos de cada uma das cidades-sede – como a praia de Copacabana" para que tenham uma "experiência única" ao assistirem os jogos, especialmente porque serão os espaços para conhecerem a "missão da Fifa e terem contato com as marcas patrocinadoras".

Cercas, controle e barreiras antichoque

Ao contrário de espaços públicos abertos onde os torcedores se reúnem para curtir os jogos da seleção nacional como passou a ser tradição nos bairros e centros de várias cidades do Brasil, as Fan Fests acontecem em espaços públicos controlados, com exclusividade comercial dos parceiros da Fifa e sob sua "jurisdição" durante todo o torneio. Em outras palavras, ao longo de todo o mês em que acontecerá a Copa além das "Zonas de exclusão" definidas por contrato ao redor dos estádios (esse é um assunto para outra hora), haverá a apropriação privada de espaços públicos como, por exemplo, o Vale do Anhangabaú em São Paulo.

As especificações nas diretrizes da Fifa de organização das Fan Fests são muito claras e bem documentadas. As cidades-sede devem garantir que os espaços "em lugares centrais e de fácil acesso" estejam disponíveis de 13 dias antes da abertura da Copa até cinco dias depois da final em todas as cidades-sede. Nesse período a cidade-sede deve garantir o controle da entrada e saída da área, com postos de revista em cada ponto de acesso. Os lugares devem ter cercas de 2 metros de altura ou espaços para cercas temporárias além da imprescindível construção de "barreiras antichoque e barricadas" nas imediações. Também é obrigação das cidades-sede garantir que em cada entrada haja "uma quantidade suficiente de áreas de revista de espectadores". É justamente por conta dessas exigências, combinadas ao temor da Fifa de que as manifestações contra a Copa atravessem todo o megaevento, que a realização das festas em lugares possivelmente incontroláveis como Copacabana, por exemplo, está sendo rediscutida.

Apropriação privada dos espaços públicos

No interior dos espaços onde ocorrerão as Fan Fests, previstas para no mínimo 20 mil pessoas (em algumas se prevê mais de 100 mil), a permissão de atividades comerciais é restrita aos parceiros da Fifa, a saber: Coca-Cola, Emirates Airlines, Sony, Hyundai-Kia Mortors, Adidas e Visa, com possibilidade de espaços comerciais cedidos a patrocinadores de escalão hierárquico inferior como McDonalds, Budweiser e Itaú. Quaisquer outras marcas que eventualmente estejam presentes no campo de vista que o local abrange devem ser cobertas ou removidas. No caso de serem espaços de vendas de anúncios os mesmos devem ser comprados pela cidade-sede. Isso também se aplica a todo o entorno das áreas das festas. Além disso, também devem ser construídas áreas internas reservadaos à Fifa, seus parceiros e afiliados e à TV Globo, que também é organizadora e parceira prioritária dos eventos, tendo em vista que será a responsável por organizar a programação de shows nas Fan Fests e transmitir para todo o Brasil e para o mundo, com exclusividade, as marcas da Fifa e dos patrocinadores associadas à festa e "alegria do futebol".

Até a gratuidade das Fan Fests não está totalmente garantida. Segundo o documento que orienta os eventos "a TV Globo poderá aprimorar a estrutura existente através do oferecimento de entretenimento de alta qualidade, como shows e apresentações de palco em qualquer um dos sete (7) dias sem jogo durante a Copa do Mundo da FIFA 2014™ (de 12 de junho a 13 de julho de 2014), podendo cobrar taxa de entrada (uma vez que nenhuma partida será exibida). (…). A renda gerada por meio desses eventos, incluindo taxas de entrada, poderá ser embolsada integralmente pela TV Globo". Ou seja, mesmo com as receitas de marketing exorbitantes que podem ser obtidas pelas empresas parceiras e afiliadas da Fifa com a propagação mundial de suas marcas e com os previstos recordes de audiência da Globo por transmitir o maior megaevento do mundo, ainda é possível que haja cobrança de ingresso pelo acesso aos espaços públicos das cidades!

O povo vai assumir a conta?

Com tudo isso, você deve estar se perguntando: "com todo esse lucro, os patrocinadores e a Fifa pagarão pela organização e estrutura das festas?". Não, nem isso. No fim, quem paga a conta é você, contribuinte e morador das cidades da Copa. À exceção da estrutura do telão e do palco e dos banners com as marcas que ficarão ao encargo da Fifa e da organização e transmissão dos shows que serão responsabilidade da TV Globo, todo o restante da estrutura e gestão evento – local, limpeza, segurança, cercas, barreiras antichoque e barricadas, estacionamento, seguros, licenças e custos legais, estruturas de torres e andaimes, água, energia, iluminação do local, contêineres, estruturas de comunicação, alimentação, sanitários, guindastes e plataformas elevatórias, pronto socorro, tráfego e transporte, etc. – será custeado pela cidade-sede, isto é, será dinheiro público.
Embora a Fifa não diga, estima-se que os custos para o evento girem em torno de R$ 10 milhões para uma estrutura "modesta" mas podem ser bem superiores. Sem contar, o tradicional superfaturamento, é claro. Embora Valcke afirme que os custos podem ser inferiores aos de festas como o Carnaval, o Reveillon e festas regionais, é certo que a comparação com essas festas populares, por mais mercantilizadas que se tente fazê-las, é improcedente, tendo em vista o tamanho da concentração do lucro das Fan Fests. Para tentar aplacar o enorme prejuízo restaria às cidades-sede se responsabilizarem pela venda de alimentos e bebidas (não alcoólicas) – exclusivamente fornecidas pelas afiliadas da Fifa, é claro – e operar o chamado "programa de hospitalidade" com a comercialização de espaços privativos dentro dos espaços públicos já apropriados privadamente a serem utilizados "pela Sede, pela FIFA, por VIPs, pelos Patrocinadores do FIFA Fan Fest™, pelo Parceiro de Mídia, por Anunciantes Terceiros, pelo governo e por outros terceiros".

Por tudo o que está posto e pela força dos protestos que insistem em reivindicar direitos nas ruas e certamente visualizarão as Fan Fests como espaços de protestos, é possível que mais governantes em ano eleitoral se sintam compelidos a abrir mão das festas da Fifa pagas com dinheiro do povo. Por isso, é muito sábio o conselho do Xico Sá a Valcke: mais juízo, considere o cenário dos trópicos no momento e não se apegue aos contratos. Porque a Fifa, na figura de Valcke, pode prometer um chute no traseiro do Brasil. Pode dizer que é muito melhor construir uma Copa em países não democráticos. Pode exigir que se cumpram contratos que violam as leis do país e estabelecem verdadeiras normas de exceção e que foram feitos sem qualquer participação popular. Mas não pode querer que o povo que está sendo alvo dessa imensa espoliação seja alegremente conivente.

*Maurício Costa de Carvalho é geógrafo e pós-graduando em Geografia Humana na Universidade de São Paulo onde estuda os impactos da Copa na regulação do território brasileiro e as normas de exceção

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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