Blog do Juca Kfouri

Renato Pompeu (1941-2014)

Juca Kfouri

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Morreu na manhã de ontem o jornalista e escritor Renato Pompeu, uma das mentes atormentadas mais brilhantes do país.

Morreu aos 72 anos e tentando reeditar seu excelente livro “A Saída do Primeiro Tempo”, lançado em 1978 e já esgotado, sem conseguir, no entanto, por inflexibilidade da Editora  Alfa-Ômega.

Pompeu, em julho de 2012, sabedor de minha admiração por seu livro, pediu-me que escrevesse o prefácio para uma eventual reedição, coisa que fiz prontamente e que aqui, por inédito, transcrevo como última homenagem ao amigo e demonstração de enorme respeito intelectual.

 A “Saída do Primeiro Tempo” é um clássico da literatura futebolística nacional.

Pena que, de tão vanguardista, tenha sido lançado ainda em 1978, razão pela qual, apesar de atualíssimo, o livro seja muito menos conhecido, e badalado, do que merece e precisa ser.

Precursor de obras como as de José Miguel Wisnik (“Veneno Remédio”) e Hilário Franco Júnior (“A Dança dos Deuses”), Renato Pompeu nos conta uma literalmente fantástica história da Ponte Preta, dessas que torcedor algum pode desconhecer.

E, se não bastasse, no intervalo entre o primeiro e o segundo tempos da saga do espectro da velha Macaca, Pompeu traça uma genial, criativa, obrigatória, Teoria do Futebol, tomando de empréstimo o primeiro capítulo de “O Capital” de Karl Marx, sobre a Mercadoria e seus fetiches.

Ninguém passa impune sobre as 74 páginas do ensaio, “O Futebol, Crítica da Economia Política”.

Ninguém.

Nem que não goste, até odeie ou despreze o futebol.

E ninguém que leia seguirá vendo futebol do mesmo jeito.

Em ótima hora, porque o Século 21, a Ponte Preta e as torcidas do Corinthians e do Flamengo merecem, para não falar das demais, é claro, a obra de Pompeu é relançada, para compor uma espécie de trilogia com Wisnik e Franco, compondo um triângulo que vai muito além das bermudas, porque das chuteiras, calções e camisas que produzem esse encantamento chamado jogo de futebol, com todos os seus segredos, seus mistérios mesmo, que quanto mais revelam mais escondem, num jogo mágico de labirintos sem fim.

Porque, como Pompeu explica sabiamente, as ciências sociais têm se preocupado mais com coisas chatas do que com as lindas e maravilhosas como o Futebol, que carrega em si a tendência de ser Atividade Única do mesmo modo que se sonha com a Religião Única ou com o Partido Único.

Ora, quem já pensou que o futebol implica na existência da Mulher, pois senão os jogadores não teriam nascido?
Pompeu pensou.

Quem já refletiu sobre a complexidade da Saída do Primeiro Tempo?

Pompeu refletiu.

E sobre a vocação democrática implícita do futebol?

Além do Doutor Sócrates, só Pompeu ponderou, e antes do Magrão.

O homem brinca com a bola que é redonda como o mundo é redondo e realiza pelo futebol o desejo de todos, o de brincar com o mundo.

Pompeu brinca com as palavras, com as ideias, as teorias, e nos diverte e instiga ao tratar o óbvio com a inteligência que só os mais bem providos são capazes.

Tanto que elege João Saldanha como o maior intelectual brasileiro e ensina que o gol é a vitória da Vida sobre a Morte, o triunfo do dinamismo contra o imobilismo, já que os jogadores e a bola são móveis, e, as traves, imóveis.

Não, não contarei mais.

Chega de estragar prazeres.

Pena que o velho alemão não poderá desfrutá-los como você.

Republico, abaixo, os obituários hoje publicados pelos jornais “O Estado de S.Paulo” e “Folha de S.Paulo”.

Morreu na manhã deste domingo (9), aos 72 anos, o jornalista Renato Pompeu. Ele foi integrante da equipe que fundou o “Jornal da Tarde”, do Grupo Estado, em 1966 – onde voltaria a trabalhar nos anos 1990. Também atuou na revista “Veja”, da Editora Abril, – parte do time que criou a revista, em 1968 -, e no jornal “Folha de S.Paulo”.

Pompeu também trabalhou na agência United Press International (UPI) e na equipe da enciclopédia Larousse-Cultural.

Até a véspera da morte, o jornalista continuava trabalhando diariamente. O último post em seu Blog do Renatão, mantido por ele desde outubro de 2009, data de sábado (8). Também assinava uma coluna na revista “Caros Amigos” e colaborava com o jornal “Diário do Comércio”.

Ao longo de sua carreira, Pompeu publicou mais de 20 livros, entre eles os romances Quatro-Olhos, de 1976, e A Saída do Primeiro Tempo, de 1978, ambos lançados pela editora Alfa-Omega, e o infantojuvenil A Menina Que Veio das Estrelas, que saiu em 1985 pela Companhia Nacional.

Em 2003, publicou pela Ediouro Canhoteiro – O Homem Que Driblou a Glória, biografia do jogador José Ribamar de Oliveira (1932-1974), o Canhoteiro, apontado por muitos como o maior ponta-esquerda do futebol brasileiro.

Ele cursou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo – e jamais concluiu. Como jornalista, ganhou um prêmio Esso e três prêmios Abril. (O Estado de S.Paulo).

Em 2008, ao responder sobre quais conselhos daria a um jornalista iniciante, o jornalista e escritor paulista Renato Pompeu de Toledo recomendou abandonar imediatamente a profissão.

Em caso de insistência, disse ele à publicação “Observatório da Imprensa”, o melhor é se estabelecer de forma independente na internet. “Se isso também não foi possível, procurar manter a dignidade profissional e preparar-se para uma vida de sacrifícios.”

Ao longo de uma carreira iniciada em 1960 e que durou até a véspera de sua morte, o incansável Pompeu de Toledo seguiu um pouco de cada um desses conselhos.

Trabalhou em diversos meios de comunicação, entre os quais a Folha, a revista “Veja” e o “Jornal da Tarde”. Ganhou um Prêmio Esso de Jornalismo.

Quando não estava numa redação, Pompeu de Toledo se dedicava a escrever livros. Foram ao todo 22 obras, incluindo os romances “Quatro-Olhos” (1976) e “Samba-Enredo” (1992) e a biografia “Canhoteiro, o Homem que Driblou a Glória” (2002).

Desde 2009, Pompeu de Toledo também mantinha o blog do Renatão, onde publicou pela última vez anteontem, sobre a importância da obra da antropóloga e primeira-dama Ruth Cardoso.

Horas depois, ele se sentiu mal e foi internado em um hospital de São Paulo.

Renato Ribeiro Pompeu morreu ontem de manhã aos 72 anos, após uma parada cardíaca. Solteiro, ele não deixa filhos.(Folha de S.Paulo).