PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Vai ter Copa!

Juca Kfouri

07/01/2014 06h00

20140107-002912.jpg

Salvador Allende, o presidente socialista chileno criminosamente deposto em 1973, costumava dizer que os extremos se postavam às suas costas.

Referia-se às extremas direita e esquerda que interromperam o longo período de democracia no país andino, num dos golpes mais sanguinários da América do Sul.

Guardadas todas as proporções, eis que temos hoje no Brasil os extremos reunidos sob a mesma palavra de ordem: "Não vai ter Copa".

Black blocs de um lado e uma certa oposição desvairada ao governo do outro.

É claro que a Copa acontecerá, não se sabe como exatamente nos estádios nem nas ruas, embora se possa imaginar que as coisas acontecerão mais ou menos como na Copa das Confederações.

Mais se a Força Nacional cometer excessos repressivos.

Menos se a prevenção for feita com a cabeça e não com o porrete.

Mas não há como evitar que a independência crítica siga em seu trabalho de mostrar todos os absurdos que cercam o megaevento, postura obrigatória que está longe de se confundir com complexos de vira-latas ou falta de patriotismo.

Se à esquerda o padrão Fifa virou paradigma para hospitais, escolas e mobilidade urbana, à direita virou rótulo das deficiências das políticas governamentais.

Nos extremos das duas posturas, juntam-se a violência que bota fogo na fervura e a demagogia de quem só pensa nos excluídos como bucha de canhão.

Estão de mãos dadas — e a posição oficial de tentar tapar o sol com peneira não ajuda a combatê-las, ao contrário.

A Copa brasileira não será a "Copa das Copas" como quer o governo, assim como o Brasil não é o país do futebol nem muito menos o futebol é uma religião para nós, brasileiros, como supõe a Fifa.

Ao optar pelo secundário e pelo megalomaníaco ao fazer a Copa em 12 cidades, quando poderia, e deveria, tê-la limitado às oito exigidas pela Fifa, a Copa do Mundo no Brasil perdeu a oportunidade de ser a Copa do Mundo do Brasil, sem esconder nossos problemas.

Denunciar os elefantes brancos, o gasto desmedido de dinheiro público na construção de estádios em vez de investimentos na melhoria das sedes, as remoções arbitrárias, por mais que irrite o jornalismo chapa branca, é obrigação de quem, como ensinou o insuspeito Millôr Fernandes, sabe que jornalismo é oposição, não armazém de secos e molhados.

Mentir, distorcer, confundir alhos com bugalhos como fazem os que escondem 502 anos de História do Brasil, como se o país tivesse apenas 12, são outros 500, a outra face da mesma moeda.

As manifestações de junho passado não foram exatamente contra o governo federal, mas, se também contra ele, ainda assim a seu favor, pelo aprofundamento das melhorias que trouxe para quem as desconhecia.

Lembremos que ao lado das responsabilidades indiscutíveis do PT, vimos o PSDB cúmplice, em São Paulo, da exclusão do Morumbi como um dos palcos do torneio. E em Minas, que não dá conta nem das chuvas, para não falar de suas estradas, mas fez outro Mineirão.

Em resumo, "Vai ter Copa", e tomara com a derrota dos que apostam no quanto pior melhor, sob a vigilância dos que não se deixam cooptar nem por gregos nem por troianos, para que ao fim dela o Brasil esteja, ao menos, mais maduro.

Com novo foco, a Olimpíada de 16, história que fica para outra vez.

20140107-104453.jpg

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

Blog do Juca Kfouri