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Máfia da Loteria: os fantasmas da denúncia

Juca Kfouri

12/12/2013 22h23

POR SÉRGIO MARTINS

Reflexões do repórter que levantou todo o escândalo da Loteria Esportiva. E sua certeza, um ano depois, de que o mundo do futebol sempre fingirá que nada está acontecendo

Placar, na semana passada, comemorou com um bolo debochado o primeiro aniversário da denúncia sobre a Máfia da Loteria Esportiva. E velhos fantasmas de um ano voltam a arrastar suas pesadas correntes por alguns porões, incluindo o meu.

Não é sem uma leve ponta de gélido terror que contabilizo dois anos de minha vida investidos a fundo perdido no assunto. Tornei-me um raríssimo especialista em mutretas lotéricas. Sou hoje capaz de acertar as zebras do fim de semana sem olhar os times envolvidos. (Colegas da redação podem testemunhar essa minha nova habilidade.) Conheço o método e a psicologia dos mafiosos. Até hoje resisti heroicamente à tentação de utilizar-me de tão triste conhecimento.

(Confesso aqui um dos fantasmas da minha coleção: o que dirá a imprensa no dia em que eu conseguir fazer os 13 pontos? Tenho a intuição de que toda ela passará a concordar repentinamente com a existência da Máfia: afinal, que maior prova poderá haver do que a suposta locupletação de um colega que fez a denúncia?)

Ou talvez fosse melhor aproveitar minha atual bagagem teórica de manipulação de resultados nos fins de semana e abrir um escritório de assistência para os apostadores que hoje fazem sua fezinha em condições de desigualdade com a Máfia. Tenho até um slogan já preparado: "Zebrões e afins são com o Sérgio Martins".

Não me levem a sério, assim como não consigo levar o futebol brasileiro a sério hoje. Leiam-me com o mesmo espanto com que leio declarações de certos dirigentes e jogadores sobre determinados jogos. Mas respiro fundo e vou em frente. Não nego: depois de dois anos mexendo com o lado sombrio do futebol, tornei-me um estranho repórter esportivo. Se um centroavante perde uma série de gols feitos e seu time transforma-se numa luzídia zebra de 18%, acendo um cigarro, fecho os olhos e procuro pensar na desolação das praias do Havaí num dia de chuva torrencial. Nem tudo é corrupção, dizem meus amigos mais lúcidos. Mas se eles soubessem as coisas que eu sei!

Cedo ou tarde, por uma questão de coerência, terei de optar: como trabalhar em algo em que não se acredita mais? Não há qualquer vestígio de autocompaixão nisso. Houve um dia, há muitos anos, em que não consegui mais cobrir a área policial. Mudei de editoria. Amanhã, se deixar o esporte, eu e o futebol estaremos quites. Se ele foi até decisivo na minha formação (e isso agradeço), não deixarei que o seja na minha deformação.

Quando a denúncia surgiu, há um ano, muitos jogadores estavam dispostos a confirmar a ação criminosa de companheiros e ex-companheiros, mas foram calados à força pelos sindicatos de classe, que os ameaçaram até de expulsão. O futebol não estava disposto a proteger-se, mas sim a um pequeno grupo de maus profissionais.

No entanto, a vida segue. É apenas uma questão de tempo para que surjam novas denúncias. Como das outras vezes, todos fingirão que nada está acontecendo. A meningite não deixou de matar apenas porque a imprensa estava sujeita a censura prévia. Nem a corrupção deixa de existir apenas porque se vira o rosto para o outro lado. Há dez anos, desde as primeiras denúncias esparsas sobre grupos especializados em manipular jogos, o futebol – leia-se jogadores, dirigentes, técnicos e a imprensa especializada – tem sistematicamente se negado a mexer em suas feridas, como se não estivesse doente. Por que tão teimosa resistência? Um doce para quem responder. Melhor: uma zebrinha. Biônica, milionária.

Sérgio Martins
Repórter especial de Placar"

 

Texto publicado na edição nº 701, 28 de outubro de 1983, seção "Abrindo o jogo", da revista Placar, ora republicado em homenagem e em memória de um extraordinário jornalista.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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