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Blog do Juca Kfouri

Craques commodities

Juca Kfouri

27/08/2013 10h00

POR BERTO FILHO*

O sucesso do modelo de exportação de médicos commodities de Cuba, que rende U$ 5 bilhões por ano, fatura contra mais de 60 países e tem peso expressivo na balança comercial da ilha comunista, guardadas as proporções entre a ditadura feroz de esquerda de Castro e a democracia brasileira – cuja face mais radical se expressa desde junho pela voz das ruas e pelas inumeráveis conexões das redes sociais-, poderia ser replicada no Brasil através da exportação de craques.

O futebol brasileiro é a maior usina do mundo de jogadores tipo exportação.

A exemplo dos doutores cubanos, cada craque é um embaixador em potencial e um divulgador nato da macunaímica cultura tupiniquim e da liberdade de expressão de que é capaz a atual democracia brasileira.

O problema está no modelo de negócio.

Em Cuba, o modelo é de um Estado centralizador, o governo exporta médicos funcionários públicos e fica com a parte do leão.

A vice ministra da Saúde de Cuba, Marcia Cobas, afirmou no Brasil que os médicos vão receber entre 40 e 50% dos R$ 10.000 e mais o salário que já recebem em Cuba.

Esses números, oficiais, jogam por terra as especulações de que esses doutores ficariam com uma migalha equivalente a 7 ou 15% do total. Se é assim, bom para eles.

Podem não estar vindo, como dizem , por amor ao dinheiro e sim por solidariedade ao povo e por humanismo.

Mas que esse dinheiro ajuda, ajuda, e também os estimula a propagar as "maravilhas" do regime cubano. Faz parte.

Acabaram dando um carrinho faltoso por trás nos médicos brasileiros que rejeitaram trabalhar nas 700 cidades do interiorzão e nas periferias das principais cidades no programa Mais Médicos.

Não receberam cartão amarelo e sim flores e saudações dos companheiros nativos…

Porque os brasileiros refugaram ?

Por preconceito contra a pobreza ?

Por medo de pegar malária e de enfiar o tênis na lama?

Porque sua formação não é humanista, não praticam medicina comunitária e familiar ?

Ou porque não vão encontrar assistentes competentes, enfermeiros, equipamentos e material de consumo para ajudá-los a aliviar as dores e consequências do abandono da saúde daquela gente esquecida ?

É o enigma que os sociólogos precisam decifrar.

No fundo, no fundo, a imagem dos médicos brasileiros está saindo meio arranhada dessa dividida…

O fato é que a fama da medicina cubana, já comprovada pelo ex-ministro da Saude, José Serra, e o médico de lá trazem divisas para a ilha.

O paralelo entre a medicina cubana e o futebol brasileiro continua aqui.

No Brasil, o modelo é capitalista e o mercado do futebol é uma instituição tão forte que se superpõe ao governo, como ficou claro na relação da FIFA com a CBF e o governo brasileiro na construção dos estádios e venda de ingressos para a Copa das Confederações e vai se repetir na Copa do Mundo.

É inviável o Estado brasileiro deter 80% ou 90% da receita com a exportação de craques commodities.

A CBF teria que ser estatizada e transformada num mero departamento de exportação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, perdendo o appeal de top de linha da cartolagem do futebol.

Federações estaduais e clubes também seriam estatizados e os jogadores seriam funcionários públicos, com salários limitados a 10 ou 15% do que o Estado receberia como fruto do seu trabalho nos campos e da venda ou locação de seus passes para clubes estrangeiros.

Perceberam as semelhanças e diferenças entre médicos cubanos e craques brasileiros nessa comparação lúdica para efeito de balança comercial ?

Ambos são commodities e simbolizam as imagens ideológicas e culturais de seus países.

Mas o governo brasileiro, não tendo como assimilar o modelo cubano, só pode dar suas mordidas na renda da exportação de craques através do leão do IR.

Fiz um faz de conta, só para entreter o leitor.

Porém, se desde Cabral, não o governador mas o descobridor, ou, com maior precisão, se desde a chegada do futebol (inventado na Inglaterra) no começo do século 20, o Brasil tivesse incluído nossos Neymares nas commodities exportáveis como o contrabandeado pau Brasil dos anos 1500, e, depois, café, soja, carne de boi, suco de laranja, etc, o Brasil talvez pudesse ter juntado nos últimos 50 anos algo em torno de (chutando) alguns bilhões de dólares anuais em divisas, incluindo, é claro, a taxação de 50% sobre o valor de venda dos passes desses gênios da bola.

Não contei o número de países e clubes estrangeiros onde jogam nossos artistas mas não deve ser desprezível.

Do futebol para o palco.

A música brasileira, em menor escala, também é uma fonte de divisas e de divulgação de nossos valores no exterior.

Através de seus músicos, compositores, arranjadores e intérpretes, a bossa nova entrou nos Estados Unidos e outros países nos anos 60 e não saiu mais.

Mas é difícil calcular valores nesse mercado intrincado de direitos autorais, de execução e conexos arrecadados no exterior. O artista da música não atua em um time, não tem como vender o seu passe.

Sempre faltaram inteligência estratégica e sensibilidade aos governos brasileiros para perceber o óbvio : o império americano é muito mais eficiente pelo soft power – hoje em voga na ABL e nos discursos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – para conquistar a simpatia mundial por suas causas -, do que pelo seu poder bélico e de dissuasão nuclear.

O cinema e a música sempre foram aliados essenciais de seu poder de empatia e para a penetração global dos Cadillacs, Fords, Oldsmobiles, geladeiras Frigidaire da GM, aviões da Panam, programas da Microsoft, Apple, McIntosh, Google, Facebook e demais símbolos da glamurosa colonização do american way of life.

Viajamos de Cuba aos Estados Unidos passando pelo Brasil, montados na medicina comunitária, no futebol espetacular e na música brasileira.

Dou uma paradinha para tomar fôlego e ver como a carruagem dos fatos vai andar esta semana.

*Berto Filho é jornalista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/