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Blog do Juca Kfouri

Barbosa, Shane e Sartre

Juca Kfouri

27/08/2013 00h47

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Paulo Perdigão (1939-2006) tinha obsessões. Uma delas era a derrota do Brasil em 1950. Outra, o filme Shane (Os brutos também amam).

Sobre a primeira, à qual ele assistiu da arquibancada, pesquisou incansavelmente e escreveu um livro monumental (Anatomia de uma derrota, Editora L± 1986 e 2006), que reconstitui tudo o que houve – não é exagero – na final da Copa.

Sobre a segunda obsessão, filme ao qual ele assistiu quase cem vezes, chegou a remontar a cena em que ele substituía o garoto Joey no duelo final, avisando ao herói sobre o atirador escondido e salvando-o.

O livro sobre a final de 1950 nasceu de um conto seu – e que deu origem a um curta-metragem chamado Barbosa – no qual ele volta no tempo, até àquela tarde no Maracanã.

Ali, ele se vê, com 11 anos, na arquibancada, sendo abraçado pelo pai no gol do Brasil – os únicos abraços, dizia, que ele receberia do pai em toda a vida. Depois, dirige-se ao campo, atrás do gol do Brasil, para avisar ao goleiro Barbosa de que Ghiggia chutaria no canto esquerdo.

Perdigão deve ter assistido a Shane, pela primeira vez, com mais de 15 anos (o filme é de 1953). Também escreveu sobre o filme (Western clássico – Gênese e estrutura de Shane; Editora Rocco, 1ª edição, Editora L&PM, 2ª edição, 2002), visitou os locais das filmagens e entrevistou o diretor, George Stevens (Filme Cultura, n.º 14, Instituto Nacional de Cinema, abril/maio de 1970).

Sua tese, com a qual nem Stevens concordava, era de que se tratava de um filme sobre a infância.

Não é difícil entender essa visão. Perdigão perdera sua infância no dia da derrota para o Uruguai. Ali ele perdeu seu pai, com seu cheiro do terno de linho e de loção de barba.

Passou o resto da vida buscando a infância de volta. A ponto de criar a máquina do tempo que o colocou, adulto, atrás das traves de Barbosa para impedir o gol de Ghiggia, evitar a derrota do Brasil, salvar sua infância e recuperar o pai.

Viu uma grande chance quando, adolescente, assistiu a Shane. Ali o herói não morria. E quem o salvava era justamente um menino de cerca de 11 anos.

Porém, nem na Copa nem no filme o herói é o seu pai. Na primeira, é Barbosa; no segundo, é Shane. O pai, nos dois casos, é distante, fraco: só a defesa de Barbosa e a vitória de Shane poderiam dar proximidade e força ao seu pai. Mas o primeiro falha – e o pai se vai -, enquanto o segundo é salvo justamente por Joey, que perde seu herói mas ganha o seu pai.

Por isso ele volta, adulto, ao Maracanã. Para ser o Joey de Barbosa. Para Barbosa ser o seu Shane.

Mas no conto, quando ele está atrás do gol e grita "Barbosa", para salvá-lo como no filme, o goleiro se distrai com seu grito e deixa o canto aberto – e é ali que Ghiggia (o vilão Jack Wilson) marca o gol que levou o Brasil, o seu pai e a sua infância para nunca mais.

Ele tentou concretizar, no conto, a esperança que o filme lhe dera na adolescência. Mas o conto, na verdade, assume seu fracasso: não seria possível. Tudo aquilo se perdera. Era como se ao gritar "Shane!" ele distraísse seu herói e ele fosse morto por Wilson (Ghiggia).

Adiciono outro aspecto.

Perdigão escreveu um livro sobre Jean Paul Sartre (Existência e liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre; L&PM, 1995), no qual a tese central tem dois pontos: a) a existência precede a essência, ou seja, partindo do nada, nós seremos aquilo que fizermos de nós por meio de nossas escolhas; e b) a liberdade é a liberdade de sempre ter que escolher entre opções concretas com que nos defrontamos e assim constituir o que somos e seremos.

Perdigão, de certo modo, pensava que a escolha que ele fizera na final da Copa de 50 – porque era óbvio, para ele, que a culpa da derrota era toda e somente sua, senão não haveria sentido em voltar na máquina do tempo e tentar corrigir o malfeito (e tal culpa está assumida na Introdução do livro) – constituía seu ser, sua essência, a perda irrecuperável que nem o fato de ele salvar Shane pôde refazer.

Por isso – pelo pai, pela infância, pela culpa irremissível – Perdigão sempre dizia que de nada adiantava quantas Copas o Brasil viesse a ganhar (acrescento eu: e nem que Shane nunca mais morresse no final do filme). Porque, nas suas palavras, "o Brasil nunca mais vai ganhar a Copa de 1950!".

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Luiz Guilherme Piva é um ser e um nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/