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Blog do Juca Kfouri

Campeão de 1910

Juca Kfouri

29/06/2013 05h56

 

POR CARLOS DIDIER

 

Como militar, Dinorah Candido de Assis aspirava ser oficial da Marinha; como jogador, era titular do Botafogo Futebol Clube. Defendera o América até 1908, mas em agosto do ano seguinte, quando Euclydes da Cunha, autor de Os Sertões, entrou na casa na Estrada Real de Santa Cruz para matar seu irmão Dilermando, amante da esposa do escritor, Dinorah já se transferira para o futuro time da Rua General Severiano.

Esbelto em sua farda, craque em seu uniforme, a bala desferida por Euclydes da Cunha, quando Dinorah correu para pegar a arma, permaneceu alojada em sua espinha dorsal, próximo da nuca.

Em 1910, ainda com a bala no corpo, o jogador ajudou o Botafogo a conquistar seu primeiro campeonato. Justamente o citado no hino:

Botafogo, Botafogo
Campeão de 1910.

(Lamartine Babo, Marcha do Botafogo)

Hino que teve, um dia, a preposição "de" expulsa de campo, substituída por "desde" – não sem um certo sacrifício melódico. Porque torcedores rivais brincavam: teriam sido campeões apenas "de 1910". Afinal, estava no hino.

Coggin, Pullen e Dinorah; Rolando, Lulu e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro. Esta foi a equipe que deu ao Botafogo a alcunha de glorioso.

Dinorah atuava na zaga e chamava a atenção pelo vigor dos chutes, pelo bom posicionamento, pela calma e precisão dos passes. Disputou nove das dez partidas. Na "final" (o último jogo deste campeonato ainda sem Flamengo e Vasco foi mesmo contra o Haddock Lobo), seu time derrotou o Fluminense por 6 x 1. E o irmão de Dilermando de Assis – o homem que matou Euclydes da Cunha – estava lá.

Com o tempo o projétil na coluna vertebral trouxe complicações, e apesar da intervenção cirúrgica de 1913 Dinorah tornou-se hemiplégico. A doença destruiu suas carreiras, no esporte e nas forças armadas. Teve um fim de vida trágico: entregue ao vício do álcool, infectado pela sífilis, paralítico, atirou-se às águas. No cais de Porto Alegre, em 1921. No lance menos divulgado da Tragédia da Piedade.

* Carlos Didier, convidado especial é flamenguista, historiador da música popular brasileira e da cidade do Rio de Janeiro. Engenheiro e músico é autor de "Noel Rosa, uma biografia"(em parceria com João Máximo); de "Orestes Barbosa, cronista e poeta" (prêmio Jabuti de biografias) e "Nássara passado a limpo", além de várias outras publicações. Foi um dos fundadores do grupo musical "Coisas Nossas" que fez história interpretando a obra de Noel Rosa. Aqui, Carlos Didier (Caola) e o conjunto "Coisas Nossas" interpretando trechos inéditos de "Com que Roupa?" de Noel Rosa, programa gravado em 1984.

 

Um toque do Megafone:

Na próxima terça feira o Megafone do Esporte publicará um artigo de Raul Milliet Filho intitulado: "Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio?"( Bertold Brecht)- O equívoco dos megaeventos.

O autor acredita que o fausto arrogante do "padrão FIFA" dos estádios não somente é desnecessário como desfigura culturalmente as torcidas nas arquibancadas.

Como disse Afonsinho na Carta Capital esta foi a Copa das Manifestações.

No artigo a opção da Política de Esportes no Brasil em priorizar os megaeventos será escovada a contrapelo. Salientamos que o seu conteúdo não representa necessariamente a opinião de todos os integrantes do grupo.

Deixa Falar: o megafone do esporte − criação e edição de Raul Milliet Filho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/