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Carta Aberta de Paulo André a Charles Miller

Juca Kfouri

2006-04-20T13:16:27

06/04/2013 16h27

Caro Sr. Miller,

Venho por meio desta atualizá-lo sobre o projeto que o senhor trouxe, há mais de um século, do Velho Continente às terras tupiniquins. Saiba que este negócio se tornou a maior empresa de entretenimento que o planeta já viu e hoje movimenta, só nesse país, mais de R$16 bilhões por ano, além de dezenas de milhões de praticantes apaixonados.

Apesar dos números astronômicos apontarem um estrondoso sucesso em tua empreitada, sei que o senhor se afastou e não tem acompanhado os grandes espetáculos, nem frequentado os botequins ou as praças públicas para discutir as reais necessidades do gigante que, a muito custo, ajudastes a construir.

Ora, Sr. Miller, entendo os motivos para a tua repulsa e vergonha. O "filho" pródigo tornou-se promíscuo e esqueceu-se de todos os princípios básicos e objetivos que dele deveriam derivar – como educação e cidadania. Pior que isso, ele aceitou fazer parte de manobras políticas e econômicas ao longo dos tempos, sendo usado por reis, ditadores, mafiosos e todo tipo de gente sedenta por poder que, sábia e inescrupulosamente, enxergou o potencial do teu negócio e investiu pesado para mobilizar massas e arrastar multidões.

É lógico que há fatos negativos que se originaram e se espalharam à partir da "fundação" do teu império e, por isso, entendo o teu distanciamento. Mas nem só de pontos ruins vive teu legado. Há inúmeras conquistas e avanço nas relações sociais, resultados importantes no desenvolvimento cognitivo e físico de seus praticantes, além, é claro, de histórias e mais histórias de um povo que, por meio do talento, encantou e conquistou o mundo. Tanto, que teu negócio é reconhecido como patrimônio nacional do nosso país.

Sr. Miller, por favor, não desanime.

Bendito seja o dia em que o senhor decidiu colocar dentro da mala as alegorias e o livro de regras, atravessar o Atlântico e compartilhar conosco o conhecimento que adquiriu na Grã-Bretanha, cujo intuito era promover e desenvolver as práticas ludopédicas em solo brasileiro.

Esta iniciativa foi fundamental para que o senhor fosse aclamado e reconhecido como um dos principais responsáveis pelo crescimento universal da "empresa" que tem – ou tinha, em sua filial aqui no nosso Brasil – além dos incríveis resultados, a melhor produção industrial e capacitação de artistas geniais.

E, exatamente por isso, seria de vital importância obter a tua opinião acerca dos assuntos atuais, especialmente pelo trágico momento em que vivemos, com violência nos estádios e fora deles, má qualidade do espetáculo, calendário sobrecarregado, Seleção Brasileira na 18ª colocação no ranking da FIFA, Copa do Mundo no Brasil, campeonatos estaduais… Talvez com a sua experiência consigamos enxergar ou entender aonde foi que trocamos os pés pelas mãos.

E olha que não uso essa expressão para me referir aos surrupiadores de "mão grande", que por tanto tempo mantiveram-se ou mantêm-se à frente das organizações que regem a prática e as competições que o senhor, de coração puro, nos fez conhecer. Meu questionamento vai muito além da corrupção. Ele tange a inércia alheia e se espalha na ineficácia em cumprir os requisitos básicos para ajudar a desenvolver, não só o esporte, mas toda a sociedade brasileira.

Querido Charles, desculpe-me chamá-lo assim, mas como o que espero contar nas cartas a seguir são verdadeiras confissões – daquelas que abrimos apenas aos grandes amigos, especialmente quando nos encontramos em situação de vida ou morte – ouso tratá-lo pelo primeiro nome e permito-lhe tratar-me da mesma forma em caso de resposta.

Aguardo gentilmente teu retorno para que possamos discutir o teu filho, o futebol brasileiro

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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