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Zona da Mata Futebol Clube

Juca Kfouri

20/03/2013 15h00

POR LUIZ GUILHERME PIVA

1.

Em Tocantins, o Ébrio, time formado por ex-jogadores, veteranos e diletantes, é sempre recebido pela torcida com o seu hino cantado alto e forte, acompanhado pela barulheira de taróis, bumbos e cornetas: "Tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer aquela ingrata que eu amava e que me abandonou (…)", a letra inteira, sem falhas.

A animação obviamente não combina com a letra, que é a história de um grande fracasso.

Mas o Ébrio não faz feio nos campos e acumula algumas glórias.

2.

Pedalou, tiro do time.

Irrita. O cara não sabe driblar e fica lá, com os pulinhos prum lado e pro outro. Desde que começou essa história ninguém dribla mais. E no meu time só joga quem sabe driblar.

O futebol é o drible. Quem manda mesmo é quem passa por três ou quatro, dá chapéu, elástico, faz que vai e volta – até fazer o gol ou perder a bola. É ali que tá quem joga mesmo. Futebol, eu tô falando.

Aí vêm esses caras agora com a pedalada. Francamente!

Ou faz o drible direito, enfileira, humilha, mesmo que perca a bola e o gol, ou dá o passe. Mas não pedala! Pelamordedeus, não pedala!

Tem outra. Beque dando chutão fingindo que é lançamento.

O cara ajeita o corpo, faz que olha alguém entrando em diagonal e bate na bola. Ela sobe, sobe, sobe e cai na cabeça do adversário. Ou vai pra lateral. Dez vezes por jogo. E ninguém tira o cara.

Eu tiro na hora. Fica uma semana treinando passe e lançamento. E banco, que é pra aprender. Se duvidar, vou eu lá e faço, ensino. Marco um xis a 40 metros e faço ela cair lá. Já joguei. Eles sabem disso.

O negócio é que eu gosto de futebol. Acha que eses técnicos famosos gostam? Mourinho, Capello, Guardiola, Felipão? Não gostam nada.

Imagine eles andando de carro numa estrada. Passam perto de um lugarejo – aqui mesmo, por exemplo, em Tabuleiro. Tem umas cabrinhas, um buteco, um cemiteriozinho e um campinho de terra com uns moleques jogando. Eu pergunto: eles param pra ver? Param? Nunca!

Pois eu paro. Descobri muito craque desse jeito. Uns até progrediram, saíram aqui da várzea.

Eu também tive minhas chances. Fui chamado por uns times aí pra ser treinador. Mas não.

Aqui é que precisam de mim. Se não, acaba o futebol aqui.

E esses meninos aí, quem é que vai cuidar?

3.

Nunca poderá haver final entre Brasil e Argentina numa Copa.

Certas coisas devem existir somente como possibilidade. Temidas ou desejadas ao extremo, elas são muito melhores quando pensadas: "já imaginou se?", "só de pensar me dá um troço esquisito", "nunca mais o mundo será o mesmo" – e por aí.

A coisa imaginada não deve ocorrer. Porque extinguiria o que a ideia tem de supremo.

Porque a realidade será sempre muito menor.

Uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina está nesta categoria. Ela é muito melhor – corrijo: só é fantástica – assim: não acontecendo jamais.

Se ocorrer, com sua mesquinhez de lances reais, com o fatídico resultado concreto, com as versões, teipes e discussões, tudo perderá tensão, prazer, pavor.

Que joguem em amistosos, torneios, eliminatórias, que se matem e se amem em qualquer lugar – até em semifinais de Copa, se preciso. Mas em final de Copa, não.

Devem seguir o exemplo de América e Pombense, de Rio Pomba.

Rivais mortais, só jogaram duas vezes entre si em mais de cem anos. Uma no início e outra no final do século XX. Foram dois empates – se não me engano, sem gols.

E a cidade, pequena, se agiganta de prazer e pavor imaginando o que seria se voltassem a se confrontar. Mas todos sabem que isso não deverá e não poderá ocorrer.

Preferem até que haja a guerra mundial, o choque entre planetas, a fome e a peste, a cura de todas as doenças, a felicidade e o dinheiro fartos.

Estou com eles.

Tudo, menos a final de Copa entre Brasil e Argentina.
______________________
Luiz Guilherme Piva é de lá.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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