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Sobre a primeira "Invasão Corinthiana"

Juca Kfouri

04/01/2013 10h51

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POR IGOR OJEDA

Caro Juca,

Como um dos autores, juntamente com Tatiana Merlino, do livro-reportagem "A Invasão Corinthiana. O dia em que a Fiel tomou o Rio de Janeiro para ver seu time no maior estádio do mundo" – do qual você assina a quarta-capa –, gostaria de fazer alguns comentários a respeito do debate sobre os números da Invasão Corinthiana de 1976 ocorrido no último programa "Linha de Passe" de 2012.

O livro que Tatiana e eu escrevemos é uma reportagem, ou seja, é inteiramente baseado em informações apuradas durante longos meses e em 30 entrevistas com torcedores, jogadores, jornalistas e dirigentes. Claro, não quero dizer com isso que a obra seja infalível e não admita reparos. Mas temos a tranquilidade de afirmar que, para elaborá-la, buscamos o maior rigor jornalístico possível.

Números como a quantidade de corinthianos que invadiram o Rio de Janeiro naqueles dias são impossíveis de se cravar, ainda mais porque o evento em questão aconteceu há longínquos 36 anos. No entanto, nossa conclusão, baseados na exaustiva apuração e nas 30 entrevistas realizadas, é que tal número se aproxima justamente dos 70 mil "consagrados" ao longo do tempo.

Segundo os meios de comunicação da época, na manhã da sexta-feira que antecedeu a partida a Federação de Futebol do Rio de Janeiro enviou 52 mil ingressos a São Paulo. Os jornais relataram, ainda, que em apenas cinco horas todos os bilhetes disponíveis no Parque São Jorge se esgotaram (na sede da FPF e nas agências do Banco Bandeirantes, em duas horas).

O Jornal do Brasil posteriormente afirmou que 10 mil desses ingressos haviam sido devolvidos e vendidos no próprio Maracanã. No entanto, a nota, de tom ligeiramente rancoroso, não cita a fonte dessa informação. Destoando da maioria dos meios de comunicação (que falavam em 70 mil alvinegros), o diário carioca usou esse dado para dar sua estimativa sobre o número de corinthianos no Maracanã: 50 mil.

Entretanto, em primeiro lugar, à luz dos acontecimentos daqueles dias, a informação dos ingressos devolvidos parece bastante inverossímil (embora não impossível). O clima corinthiano sem precedentes vivido em São Paulo naquela semana – em nosso livro há um capítulo inteiro dedicado à descrição dessa loucura – e a notícia de que os bilhetes disponíveis se esgotaram num piscar de olhos permitem-nos especular sem muito exagero que, se pusessem à venda mais 20 ou 30 mil ingressos, estes igualmente se esgotariam rapidamente.

Além disso, segundo muitos depoimentos e registros em jornais e revistas, um número de corinthianos impossível de calcular e muito difícil de estimar – mas provavelmente bastante significativo – comprou seus ingressos no Rio de Janeiro. Milhares de pessoas foram à Cidade Maravilhosa partindo do interior do estado de São Paulo ou de outras partes do Brasil – no fim de semana do jogo, esgotaram-se os voos vindos do Recife, por exemplo. Aliás, a Folha de S. Paulo de domingo trazia a informação de que no sábado tanto tricolores como alvinegros formavam filas de "vários quarteirões" nos diversos pontos de venda espalhados pelo Rio.

Claro, os focos dos meios eram São Paulo e Rio, por isso a carência de relatos e informações sobre outras cidades e regiões. Mas há informações de que uns 170 ônibus saíram somente de três municípios do interior paulista (Sorocaba, São José dos Campos e Taubaté). Mais um detalhe: mesmo entre os torcedores que partiram da capital, muitos viajaram sem ingressos – caso de parte de nossos entrevistados.

Portanto, nesse contexto, a conta do JB, de que somente 8 mil corinthianos adquiriram bilhetes no Rio de Janeiro (já que "apenas" 42 mil o haviam feito em São Paulo), é bastante conservadora. Sem falar que não se pode cravar o destino dos supostos 10 mil ingressos devolvidos – em que proporção foram para as mãos de alvinegros ou tricolores.

Sim, a Folha e os meios paulistas carregaram no tom pró-Corinthians naquela semana, especialmente nas suas capas (até como forma de entrar no clima que tomou São Paulo). Internamente, porém, a cobertura foi honesta. Assim como a do Jornal do Brasil. Mas, em nossa opinião, a estimativa de torcedores paulistas do jornal carioca peca por não considerar os elementos descritos anteriormente.

Aliás, uma curiosidade: na legenda da foto de capa do JB de 6 de dezembro de 1976 (http://news.google.com/newspapers?nid=0qX8s2k1IRwC&dat=19761206&printsec=frontpage&hl=pt-BR) está escrito: "O entusiasmo da torcida do Corinthians, que ocupou MEIO Maracanã…". Ato falho?

Outra maneira de "calcular" o número de torcedores corinthianos no Maracanã naquele dia foi a observação visual da divisão entre as torcidas dos dois times no estádio. Claro que é um cálculo impreciso, mas não muito menos do que as informações dos meios de comunicação da época.

De acordo com a maioria dos depoimentos de pessoas que estavam presentes – não somente corinthianos e, entre eles, jornalistas –, a divisão foi mais ou menos esta: nas arquibancadas, meio a meio; nas cadeiras, uma proporção de entre dois terços a três quartos de corinthianos; e nas gerais quase exclusivamente torcedores do Fluminense.

Muitos observam que a metade alvinegra das arquibancadas estava muito mais densa: ou seja, as pessoas estavam muito mais espremidas. Além disso, informações dos jornais dão conta que pelo menos por uma vez a torcida do Corinthians "empurrou" o cordão de isolamento em direção ao lado do Fluminense.

Ou seja, considerando-se que a carga de ingressos reservada para esse espaço foi de 110 mil, é possível estimar que apenas nesse setor havia entre 55 e 65 mil corinthianos – sabe-se que em qualquer estádio do Brasil o setor de arquibancadas quase sempre tem lotação total, ou seja, eventuais sobras de ingressos acontecem nas áreas mais caras.

Vale destacar ainda que o público oficial de 146 mil é o dos que pagaram ingresso. Não é absurdo nenhum calcular que, entre pagantes e não pagantes, estavam presentes no Maracanã umas 160 mil pessoas.

É preciso lembrar que a Invasão Corinthiana não se restringiu ao dia 5 de dezembro. A chegada de torcedores alvinegros à Cidade Maravilhosa começou a ser notada durante toda a semana. Na sexta, passou a ser maciça. E, até o início da manhã de domingo, a imensa maioria dos corinthianos já estava na cidade.

Portanto, os que chegaram após às 8 ou 9 da manhã de domingo faziam parte dos resquícios da Invasão. As notícias de jornais e os depoimentos dos que testemunharam esse acontecimento são claros: os corinthianos foram ao Rio de moto, carro, perua, ônibus, trem e avião. No caso dos transportes coletivos, foram disponibilizados muitos voos e coletivos extras. Ou seja, os alvinegros não viajaram apenas por linhas regulares.

Os números de coletivos fretados pelas torcidas organizadas informados pelos jornais – eram seis torcidas – são desencontrados. Uns falaram em 700, outros em milhares. Se considerado o primeiro número, somente de caravanas de organizadas foram cerca de 30 mil pessoas (isso sem levarmos em conta a gigantesca possibilidade de muitos passageiros viajarem em pé nos coletivos, já que noções de segurança no trânsito e fiscalização certamente não eram regra na época).

Mas é preciso esclarecer que não havia apenas coletivos dessas agremiações. Uma quantidade imensa de ônibus foi fretada por agências de turismo (na terça-feira, somente uma delas já havia fretado 220 ônibus, além de 20 aviões e 60 kombis, segundo os jornais), grupos de amigos, vizinhos de bairros, colegas de trabalho e de universidade e até indústrias e empresas – as fábricas do ABC cederam e/ou financiaram muitos desses ônibus para seus funcionários.

Por fim, gostaria de comentar o argumento mais utilizado pelos que contestam a Invasão Corinthiana: de que grande parte desses 70 mil torcedores era formada por fanáticos de Flamengo, Vasco e Botafogo.

Posso afirmar que nossa apuração baseada nos registros de meios de comunicação da época e nos 30 depoimentos tomados contatou que sim, havia torcedores dos times rivais do Fluminense. Mais surpreendente ainda: muitos são-paulinos, palmeirenses e santistas foram ao Rio, e torceram pelo Corinthians.

Entretanto, de acordo com nossa apuração, esse montante de torcedores não-corinthianos não foi significativo. Claro, se tomados isoladamente, eram uma quantidade razoável. Mas não se inseridos no universo de 70 mil torcedores que estavam apoiando o Corinthians.

A cobertura jornalística sobre a Invasão Corinthiana foi bastante intensa. Quem é da área sabe que num caso desses são feitas inúmeras matérias e notas auxiliares com curiosidades, personagens e aspectos que fogem da notícia central.

Muito bem. Simplesmente a suposta presença de tamanha quantidade de torcedores rivais do Flu não mereceu uma única matéria, nota ou box adicional – apenas registros perdidos no meio das reportagens principais. Pelas contas dos que negam a presença de 70 mil corinthianos, teriam ido ao Maracanã pelo menos 20 mil flamenguistas, vascaínos e botafoguenses. Seria um fato histórico quase tão importante quanto o deslocamento de 50 mil corinthianos ao Rio, já que nunca antes – ou depois – algo parecido havia ocorrido.

Ninguém que ouvimos para a elaboração de nosso livro confirmou essa tese – todos afirmaram a mesma coisa: havia sim torcedores de outros times, mas não em número significativo. E não ouvimos apenas corinthianos. Um flamenguista garantiu não ter visto essa tal quantidade enorme de apoiadores de rivais do Flu. O jornalista Alberto Helena Júnior, que diz ter sido são-paulino na infância e hoje não ter time, e até Francisco Horta, presidente do Fluminense na época, falam em "maioria" corinthiana no Maracanã, mas não fazem a ressalva da presença maciça de outros torcedores.

Nem os tricolores fanáticos Chico Buarque (que também fala em "maioria" corinthiana) e Nelson Rodrigues mencionam algo nesse sentido em suas crônicas nos dias que sucederam o jogo. Ambos estavam no estádio. Imagino que seria motivo de orgulho para os torcedores do Flu se algo tão histórico de fato tivesse acontecido ("somos tão imbatíveis que chegamos a mobilizar milhares de pessoas contra nós").

Observando-se fotos e vídeos do dia do jogo, percebe-se que é possível notar, sim, algumas bandeiras ou camisas de rivais do Flu. Mas apenas "algumas", não milhares, muito menos 20 mil. Acho que todos concordam que na ânsia por secar o Flu, uns 80% ou 90% desses torcedores estariam vestindo a camiseta do seu time para afirmar sua oposição ao Tricolor; e não a do Corinthians. Pode-se alegar: "ah, mas Botafogo e Vasco têm as mesmas cores, que podem ser confundidas no meio da torcida corinthiana". Ora, certamente num caso desses a cor predominante seria o vermelho do Flamengo, e isso de maneira alguma é percebido.

Os registros nos jornais apenas confirmam o que apuramos: as descrições são de "uma" bandeira do time x, "algumas" camisas do time y, "vários" torcedores da equipe z. Em nenhum momento se usa qualificações como "milhares", "muito numerosas", "quantidade enorme", "presença maciça" ou coisas do tipo.

Além disso, me parece ingênuo considerar que o Fluminense – ou qualquer outro time –fosse capaz de deslocar a um estádio tamanha quantidade de gente contra si. Por mais hegemônico que fosse. As outras equipes já haviam sido hegemônicas anteriormente (Botafogo de Garrincha, o Vasco da década de 1940, por exemplo) e não há registros de mobilização parecida contra elas. O que o Flu tinha para despertar tanto ódio? Seria mais plausível que algo assim acontecesse contra o Flamengo, que reúne no Rio uma legião de "desafetos" muitas vezes maior.

Um ano antes, o mesmo Flu de Rivellino (já vencedor) disputou a semifinal do Brasileiro contra o Inter no mesmo Maracanã – igualmente, era partida única. O público foi de 100 mil torcedores, e não há informações de grande presença de torcedores rivais no estádio (nem de 20 mil, nem de 10 mil, nem de 5 mil).

Calcular os corinthianos presentes no Maracanã naquele dia não é uma ciência exata. Mas acredito que os elementos e informações disponíveis, alguns deles relatados acima, sugerem fortemente que eram pelo menos 70 mil.

De qualquer forma, não importa se 30 ou 100 mil corinthianos. A Invasão Corinthiana ao Rio de Janeiro (e não apenas ao Maracanã) foi um acontecimento histórico até hoje não igualado.

Um abraço,

Igor Ojeda

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Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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