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Blog do Juca Kfouri

Obrigado, Papai Noel

Juca Kfouri

24/12/2012 12h59

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Os presentes foram tantos este ano que só resta agradecer sem pedir mais nada no Natal

PONHA-SE no lugar de um jornalista corintiano que testemunhou os 23 anos de jejum de títulos, sete deles como profissional e, neste ano, viu as conquistas da Libertadores e do bicampeonato mundial de clubes.

Bastaria, pois não?

Pois não bastou.

Ponha-se no lugar de um jornalista corintiano que durante 23 anos denunciou a gestão de Ricardo Teixeira na CBF e, neste ano, o viu renunciar e ir viver na Flórida.

O que mais haveria de querer o felizardo jornalista?

Soube de boa fonte que ele nem sequer se atreveu a pedir ao Papai Noel as conquistas de seu time, por achar que não seria justo com o generoso velhinho -afinal, uma felicidade restrita apenas a uma nação, que excluiria as demais.

Já a queda do cartola foi daquelas que fazem bem a todos, até aos que não dão pelota ao futebol.

É verdade que não resolveu o grave problema estrutural que assola o futebol brasileiro desde sempre, mas, ao menos, mesmo com a troca de seis por meia dúzia, e de dedo duro, expôs ao país a miséria da CBF, por muitos anos, devidamente avalizado pela Justiça, aqui chamada de Casa Bandida do Futebol.

De fato, os presentes foram tantos que seria necessária uma enorme cara de pau ao jornalista em questão se neste Natal acionasse Noel para algo mais.

No máximo, o mesmo!

Já pensou, diga para mim, o bi da Libertadores, o tri Mundial e a queda do Marin? Oras, sonhar não paga imposto, mas o caso aqui não é com a Receita, e sim com a fantasia e a fantasia não tem limites.

Só que o tal jornalista ficaria insuportável, mais do que já está ao dizer por aí que o time dele, além do mais, haverá de eliminar os rivais Palmeiras e São Paulo no torneio continental e vencer simplesmente o Barcelona na final do Mundial, no Marrocos, na romântica Casablanca, testemunha de que o tempo passa e capaz de dizer "play it again, team".

Mais: que impedirá o inédito, no profissionalismo, tetracampeonato paulista do Santos, façanha alcançada só pelo Paulistano em tempos imemoriais. Que será hexacampeão brasileiro porque, todo-poderoso, encerrará a mania de estabelecer prioridades e desprezar o que está mais perto, verdadeira ofensa a Fernando Pessoa.

Devaneios natalinos de quem, na verdade, quer que as festas sejam mesmo felizes para todos que as merecem nestas horas mágicas que trazem de volta os tempos ingênuos de criança que cada um tem dentro de si. Criança que olha para o futebol com os olhos que os adultos deveriam olhar, sem transformar a vontade de vencer em desejo de matar.

Adultos que não devem é perder de vista que o futebol está sendo usado para esconder muitos malfeitos, o que os jornalistas, corintianos ou não, têm obrigação de contar, mesmo que não acreditem em Papai Noel.

Feliz Natal!

(Publicado na "Folha de S.Paulo" de hoje).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/