Futebol: brincadeira de papel
POR LUIZ GUILHERME PIVA
Era véspa de Natal: cheguei em casa, minha nega zangada,
criançada chorando, mesa vazia, não tinha nada.
Saí, fui comprar bala Mistura, comprei também um pãozinho de mel,
e, completando a minha jura, fantasiei de Papai Noel.
("Véspera de Natal", Adoniran Barbosa)
O Papai Noel descia no Maracanã!
Na televisão, milhares de crianças nas arquibancadas, balões subindo, o helicóptero no centro do gramado, e ele acenando, trazendo brinquedos – que eram a própria felicidade.
Então ele existe? Ou é alguém fantasiado?
No Maracanã?
Ali era outro reino, vislumbrado também pela TV, arquibancadas cheias, com jogadores se multiplicando no gramado, com seu único brinquedo: a bola.
As duas dimensões, assim juntas, não combinavam.
Quase se excluíam.
Os jogos, craques e gols do ano inteiro existem ou são fantasia?
Com o tempo, ficou claro o que é real e o que era ilusão.
O aceno do Papai Noel virou adeus: a felicidade, descobri, é brinquedo que não tem.
De repente, ele era o meu pai – de carne, osso, afeto e segurança.
Mas ele também deu adeus, num helicóptero que, em vez de trazer, leva embora os presentes, os brinquedos, a confiança e as fantasias.
Restaram – em meio ao massacre das ausências, das ferramentas, da covardia e da realidade – os jogos, os craques, os gols.
Dos quais me sirvo escrevendo – fingindo que finjo que é dor a dor que deveras sinto.
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Luiz Guilherme Piva pensava que todo mundo fosse filho de Papai Noel.
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/











