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Blog do Juca Kfouri

O Fla-Flu do Centenário

Juca Kfouri

08/07/2012 17h56

O PRIMEIRO Fla-Flu, como se sabe, foi num dia 7 de julho de 1912.

O que marcou o 100o. aniversário do clássico, o de número 390 na história, deveria ter sido no sábado, isolado de todos os demais jogos pelo país afora, com toda a pompa e a circunstância que merece.

Mas seria exigir demais da cartolagem nacional que, no entanto, por menos que faça, não é capaz de empalidecer a grandeza da efeméride.

E se o primeiro Fla-Flu terminou com a vitória tricolor por 3 a 2, mesmo desfalcado da maioria de seus titulares que foram fundar o rubro-negro, o que mais me marcou foi o que decidiu o Campeonato Carioca de 1995.

Em outro 3 a 2 para o Flu, o jogo de 1995, o do célebre gol de barriga de Renato Gaúcho que tomou a taça do Fla em seu centenário, vi materializada pela primeira vez a expressão boquiaberta, quando, literalmente, minha mulher ficou de boca aberta ao entrar no Maracanã na ensolarada tarde do dia 25 de junho.

Subimos do estacionamento do estádio pelo apertado elevador que dava acesso às tribunas.

Percorremos o estreito corredor que levava a entrada do setor, sem nenhuma visão das frenéticas arquibancadas.

Deixe-a propositalmente para trás uns cinco passos e virei-me quando ela teve a primeira visão. E vi sua boca se abrir, seu queixo cair, extasiada.

Nada no mundo tem aquele colorido, do preto e vermelho misturado com o branco, grená e verde.

Eu vi o jogo, não só porque era o meu trabalho como porque não era o meu primeiro Fla-Flu, cujo, por sinal, não sei dizer qual foi.

Mas o dela, que passou o tempo todo de olhos pregados na torcida, primeiro único, transformou-se no meu predileto.

Ontem, o palco foi o Engenhão e, provavelmente, quando o Maracanã voltar a receber o clássico, a cena só poderá se repetir em menor escala, nunca mais com 109.204 pagantes. Preço que a tradição e a saudade pagam à modernidade.

O clichê, verdadeiro, é tratar o Fla-Flu como o mais charmoso do Brasil. Mas, não só, porque é também o mais esfuziante, o mais colorido, aquarela do Brasil.

Vida eterna ao Fla-Flu, que nasceu 40 minutos antes do Nada para o também centenário tricolor Nelson Rodrigues. E levou o botafoguense Armando Nogueira a conhecer uma moça que, perguntada sobre seu time, se disse torcedora do Fla-Flu.

No jogo de hoje, no Engenhão sob chuva forte, e com 32.591 pagantes, o talento tricolor prevaleceu sobre o domínio  rubro-negro.

Se na rodada passada o Flu venceu o Náutico graças ao seu goleiro, hoje valeu-se do jogo de tico-tico do Flamengo (não confundir com o tic-tac da seleção da Espanha), estéril.

E numa das duas chances que teve, Fred, logo no começo do jogo, aos 11, deixou sua marca no 1 a 0 que definiu o placar.

No fim, o Flamengo teve três chances claras para empatar, duas delas com o bom menino Adryan, mas perdeu-as.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/