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Blog do Juca Kfouri

Gracias, Chico!

Juca Kfouri

23/03/2012 15h16

No que me diz respeito, Chico Anysio foi ainda mais que o genial humorista que acaba de ir embora.

Sou grato a ele. Muito grato.

Porque ao lado de Jô Soares e Henfil, curiosamente outros dois humoristas extraordinários, Chico foi um dos raros apoiadores da denúncia feita pela revista "Placar" que, em 1982, revelou a existência do que foi chamado de a Máfia da Loteria Esportiva.

No auge da tensão, com a imprensa quase toda apenas tratando de dar voz aos acusados e seus desmentidos, o trio, na TV Globo, não deixava passar um programa sem fazer alguma menção em apoio à seriedade da reportagem.

Eles e, registre-se, Marília Gabriela, que comandava o TV Mulher, também na Globo.

Devo a ele, ainda, uma lição de generosidade.

Às vésperas da Copa de 1994, fui conversar com alunos de Jornalismo, em Santos,  e um deles me perguntou se eu não ficava chateado por ser substuído como comentarista por Pelé e por ele, Chico, na televisão.

Respondi que não, ao contrário, ficava até orgulhoso por serem ambos quem eram.

E brinquei que no caso de Chico era também uma compensação por ele ter se casado com a então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Melo.

Tempos depois, no Programa do Jô, ao responder se ficava contrariado com as críticas feitas à sua mulher, Chico respondeu que só havia se magoado comigo, porque não esperava de mim aquele tipo de brincadeira.

E, para minha surpresa, contou o episódio ocorrido na faculdade santista, registrado que foi numa nota por um jornal da cidade.

Entre o surpreso e o desconcertado passei aquela noite amaldiçoando a brincadeira infeliz com alguém a quem me considerava tão devedor.

E na manhā seguinte liguei para me desculpar.

Chico veio ao telefone e nem deixou que eu terminasse o que começara a dizer.

Interrompeu-me dizendo que o telefonema era o suficiente para deixar tudo zerado e que ele também às vezes corria o risco de perder o amigo para não perder a piada.

Não posso dizer que tenha perdido um amigo, porque não chegamos a tanto.

Mas perdi alguém por quem tenho grande admiração, enorme respeito e profunda gratidão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/