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Histórias de Didi e Guiomar

Juca Kfouri

2027-02-20T12:16:00

27/02/2012 16h00

Por DAVID COIMBRA

Hoje dificilmente você encontrará uma Guiomar.

Se encontrar, será bem velhinha.

As mulheres não se chamam mais Guiomar, nem Dagmar, como a daquela música de João Bosco & Aldir Blanc, "O Rancho da Goiabada", que diz que os boias frias, quando tomam uma birita, espantando a tristeza, sonham com bife a cavalo e batata frita.

A verdade é que a mulher do Didi chamava-se Guiomar, e era uma linda mulher – nos anos 50, mulheres lindas podiam se chamar Guiomar.

Essa em questão era uma cantora de certa fama.

Trabalhava vestida de odalisca num programa apresentado pelo Ary Barroso, que, naturalmente, tinha uma queda por ela.

Quando Didi casou-se com Guiomar, Ary compôs um samba, "Risque", pedindo, despeitado, que ela riscasse o nome dele de seu caderninho de endereços.

O Didi a que me refiro é o jogador, não o amigo do Dedé.

Acontece que Didi já era casado e tinha filhos, quando enamorou-se de Guiomar. Deixou a primeira família, constituiu uma segunda e causou escândalo no país.

Mas ninguém o incomodou muito, porque ele era craque.

Meia-direita de passe perfeito e lançamentos de 50 metros, bicampeão do mundo em 58 e 62, estava um único nível abaixo dos imbatíveis Pelé e Garrincha.

Nelson Rodrigues chamava-o de "Príncipe Etíope", tal a sua elegância. Neném Prancha disse sobre ele:

– Quem vê o Didi na rua, sem nem saber de quem se trata, logo pensa: "Aquele crioulo deve ser um troço na vida".

Era.

Em 59, Didi foi contratado pelo Real Madri, que pretendia montar o melhor time de todos os tempos com ele mais o argentino Di Stéfano e o húngaro Puskas, que já estavam lá.

Mas Didi fracassou no Real e, um ano depois, já vestia de novo a camisa listrada do Botafogo.

Puskas disse que Didi não deu certo no Real por ter engordado com a boa comida europeia, mas, lá da Espanha, Guiomar escrevia para os jornais brasileiros acusando Di Stéfano de boicotar o seu marido, tudo por inveja.

Foi tão enfática, Guiomar, que vingou essa versão.

Di Stéfano tornou-se persona non grata para os brasileiros da época.

Muitos até o acusavam de ser um simpatizante do ditador Franco, o que, aliás, era verdade.

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Seja como for, o fato é que Guiomar sempre cuidou dos interesses de Didi.

Era ela quem negociava os seus contratos e fazia reivindicações aos dirigentes dos clubes em que o marido jogava.

Era atendida.

Na Copa de 1954, os jogadores ficaram confinados à concentração.

Não havia celular nem internet.

Didi queria ligar para Guiomar, os dirigentes da então CBD não deixavam.

Didi fez greve de fome.

Meio fajuta, é verdade, porque Nilton Santos levava-lhe comida escondido, mas fez.

Em 1958 a coisa foi mais grave.

A Seleção estava treinando no Maracanã, quando, de repente, Didi deu um grito de horror:

– Perdi minha aliança!

O treino parou. Ele caiu de quatro na grama:

– Ninguém se mexe! A Guiomar vai ficar uma fera!

Num instante, todos, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Zito, Belini, Zagallo, todos aqueles craques num instante puseram-se de gatinhas e passaram a vasculhar cada palmo do campo de cem metros de comprimento.

Não acharam.

À noite chegou e Didi pediu:

– Acendam os refletores!

E os refletores se acenderam para que ele seguisse na busca. Vã.

A aliança não foi encontrada.

Mas o desespero de Didi parou nas páginas dos jornais e, no dia seguinte, alguém foi avisá-lo:

– Dona Guiomar está lá fora, querendo falar com o senhor.

Didi foi, não sem algum temor a lhe amolecer as pernas. Encontrou a mulher sorridente e emocionada:

– Te vi de quatro no jornal, procurando pela nossa aliança. Achei lindo. Vamos comprar uma mais bonita ainda!

Mandava muito, a Guiomar.

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Didi seguiu casado e feliz até o fim da vida.

Quando morreu, aos 72 anos de idade, Guiomar murchou de tristeza e morreu um mês e meio depois.

Belo exemplo de casal.

Embora haja quem diga que a história da aliança fosse um golpe do Didi.

Teria sido uma trama armada para justificar a perda da aliança em outras circunstâncias, menos explicáveis.

Se foi isso mesmo, não diminui o amor que ele tinha por Guiomar, mas aumenta sua capacidade criativa.

Didi era capaz de lances de gênio

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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