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Lance lendário: Luizinho x Luís Villa

Juca Kfouri

03/12/2011 00h01

Por LUIZ GUILHERME PIVA*

No Pacaembu, olha o campo vazio antes do jogo e vê o Luizinho, o Pequeno Polegar, passar a bola entre as pernas do Luís Villa.

Exatamente como leu nos jornais e ouviu no rádio durante a semana: Luizinho avisou que faria isso.

Impossível, achava. O centro-médio do Palmeiras, argentino, alto, elegante, refinado, respeitável como um moai, não permitiria.

Mas o atacante corintiano, baixinho, driblador, ousado, arisco, não deixaria de tentar.

Esfrega os olhos. O campo segue vazio. A torcida ainda é rala.

Mas lá está, nítido: Luizinho passa a bola entre as pernas do Luís Villa. A torcida estrondeia.

E mais: Luís Villa se desequilibra, verga o tronco, a fronde, hesita. A torcida retumba.

Ele sente o golpe no lugar do ídolo.

Lembra do resto do que leu nos jornais e ouviu no rádio a semana toda: Luizinho avisou que, depois do drible, sentaria na bola.

Não vai fazer, pensa, torce, teme. Fecha os olhos.

Mas mesmo assim vê a imagem que o lancina. Luizinho senta-se na bola depois de humilhar seu ídolo. A torcida explode.

Luís Villa balançando, estancando aos poucos a queda e tentando se pôr de novo ereto.

Sabe que o público ainda está começando a chegar. As cadeiras e arquibancadas estão quase desertas.

Mas os urros, as gargalhadas, os assovios da torcida colocam-no no meio de um tufão.

Eis que, súbito, o silêncio abrupto, total, tenso.

Ele abre as pálpebras de chumbo.

Luís Villa, palmeira-real, está em pé de novo, olhando para o duende mágico sentado na bola.

Pisca. Campo vazio. Pisca. Luís Villa caminha. Pisca. Ninguém no gramado. Pisca. Luís Villa de pé a poucos centímetros de Luizinho – que, na ilha de sombra, sentado na bola, olha pra cima.

Arregala os olhos, com medo de que Luís Villa vá chutar Luizinho, pisá-lo, esmagá-lo. A multidão fecha os olhos, receando o mesmo.

Mas Luís Villa estende a mão. Espera a mão de Luizinho. Cumprimenta-o. Afasta-se dois passos e, em reverência, sinaliza a Luizinho que, tendo cumprido sua promessa, siga a jogada com o brilho merecido.

Nessa hora não vê mais nada. Só o gramado do Pacaembu vazio. A torcida ainda chegando.

Percebe que era lembrança. O noticiário da semana antes do jogo, o rádio incendiando a provocação de Luizinho. A cena no estádio, ocorrida na sua frente no domingo. Tudo isso fora há muitos anos.

Antes de ele ter nascido.

Dez anos antes.

Mas seu pai contara isso a ele.

E é como se ele tivesse visto.
________________

*Luiz Guilherme Piva vai às vezes ao Pacaembu.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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