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De Casão para Sócrates: 'Confesso que te amei'

Juca Kfouri

2009-12-20T11:01:18

09/12/2011 01h18

Magro e Casão, na Copa do Mundo de 1986

Por WALTER CASAGRANDE JÚNIOR
Colunista do DIÁRIO DE S.PAULO

Claro que fiquei muito triste com a morte do Sócrates, mas, de forma até egoísta, o sentimento predominante é de alívio.

Isso porque tive a chance de falar para o cara, olhando bem nos seus olhos, o quanto gosto dele.

Precisava me sentar à mesa com o Magrão, reconhecer a importância que ele teve na minha história e recordar momentos especiais que vivemos juntos.

Para mim, era algo fundamental.

Nós passamos muitos anos sem nos falar.

Nunca brigamos,  mas havíamos nos separado em decorrência da vida.

Ficaram uma distância e alguns ruídos na relação, por conta de visões diferentes sobre algumas questões.

Mas nunca deixei de amá-lo e precisava lhe falar isso antes de sua partida.

Felizmente, essa oportunidade surgiu por conta das internações anteriores.

Se não tivesse acontecido, agora estaria carregando um peso insuportável.

Parceria

Sem dúvida, foi meu maior parceiro no futebol.

Quando eu era juvenil no Corinthians, eu o tinha como ídolo e costumava ficar ao lado do campo para vê-lo nos treinamentos do time profissional.

Depois, em 1981, fui jogar na Caldense e houve um amistoso lá contra a seleção brasileira.

Fiquei ansioso, não sabia se ele me reconheceria.

Mas o Magrão se lembrou de mim e até tiramos fotos no campo.

No ano seguinte, voltei para o Corinthians e fiz minha estreia  contra o Guará sem a presença do Sócrates.

No segundo jogo, ele também não estava.

Só fomos jogar juntos no terceiro, na vitória sobre o Fortaleza, com três gols do Zenon e um do Sócrates.

Eu participei de todos os gols e percebi que daria liga .

A partir dali, formamos uma dupla memorável, com tabelinhas e troca de passes em que antecipávamos o pensamento do outro.

As minhas características combinavam com as dele, nós nos completávamos.

Podíamos até perder, o que faz parte do jogo, mas poucas vezes não rendemos bem juntos.

Cúmplices

Nós também nos identificávamos no aspecto político.

Foi sensacional ter vivido a Democracia Corintiana a seu lado, lutado por eleições diretas para presidente e participado da fundação do PT.

Como jogadores, aproveitamos a popularidade para passar mensagens contra a ditadura militar.

Compartilhávamos também  da dependência química: tive problemas com drogas e ele, com álcool.

Pagamos caro por isso.

Sócrates não sobreviveu, mas parte em paz.

Você deixou uma história fantástica, parceiro,  e ajudou a tornar o mundo um pouco melhor.

Tínhamos uma estreita aliança…

Vou jogar meu anel fora. Fazer o que com um anel pela metade?

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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