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O 10 está morto!

Juca Kfouri

21/10/2011 10h00

Por FERNANDO FIGUEIREDO MELLO*
"Dez está morto! Dez permanece morto! E quem o matou fomos nós!".
A adaptação de botequim do trecho de A Gaia Ciência, em que Friedrich Nietzsche "mata" Deus, põe a discussão na mesa.
Porque aqui, amigo e amante da bola, o espaço é de polêmica! E é isso mesmo que você leu: o camisa 10 está morto!
Há alguns anos, nas mesas dos bares, redondas e quadradas, ouço a mesma ladainha: "o que o time precisa é de um camisa 10", "fulano de tal pediu um camisa 10 à diretoria", "falta um armador pro nosso time" e por aí vai.
Depois de tanto ouvir e também propagar o papinho dos companheiros de mesa e/ou comentaristas/especialistas, cheguei à conclusão: o camisa 10, amigos, tal qual foi concebido, o cérebro do time, o armador com armadura de cavaleiro, altivo, que tudo vê e tudo sente, não existe mais.
E quem o matou fomos nós!
Nota: o maior de todos com a 10, Pelé, não entra na disputa e discussão, porque é de outro planeta, ok?
Voltemos ao tema.
Como diria o lendário Fiori Giglioti, o tempo paaaaaaaassa, torcida brasileira!
E o tempo levou a figura do camisa 10 dos nem tão belos gramados daqui, terras tupiniquins, e também dos verdes tapetes de lá, do Velho Continente.
"Imagina, meu chapa, você tá louco? Tem um monte de camisa 10 por aí! Só não tem no meu time!", brada e brinca o amigo leitor.
"Quem?", pergunto ao companheiro.
Quem? Você vai falar do Ganso, o craque que surge com pedigree dos grandes. Deixemos o menino de passadas leves e passes mágicos para o final do texto e vamos fazer uma viagem na linha do tempo do futebol.

Cena 1: Estreia do Brasil na Copa do Mundo de 1970, no México.
A Tchecoslováquia foi um adversário duro, começou vencendo, mas o time de Pelé e cia. se impôs, virou o jogo e meteu um 4 a 1 rumo ao tri.
O segundo e o terceiro e gols são muito parecidos.
Segundo: Gérson recebe a bola já na intermediária ofensiva brasileira, para, pensa e dá lindo lançamento para o Rei, que domina no peito e fuzila o goleiro tcheco.
Depois, o mesmo Canhotinha de Ouro pega a bola no círculo central e, sem ser acossado, lança Jairzinho, que chapela o goleiro e faz o terceiro.
O jogo ficaria marcado por aquele chute do Rei do meio-campo, um dos tantos gols que Ele não fez, mas que estão na história.

Cena 2: Final da Copa do Mundo de 1998, na França.
A seleção liderada por Zinedine Zidane põe o atordoado Brasil na roda, aplica um sonoro 3 a 0 e leva o primeiro título mundial de sua história.
Já são tempos de preparo físico, de verdadeiros atletas em campo, muito diferente dos anos 1970, em que Gérson, esse aí do parágrafo acima, fumava nos intervalos dos jogos!
Uma doída missão é rever a final de 1998.
Vi mais de cinco vezes.
É impressionante como Zidane desfila em campo, está em todos os lugares das quatro linhas, arma o jogo desde o campo defensivo e chega ao ataque para enfiar uma bola.
E ainda ajuda na marcação! É o camisa 10 moderno, que corre, marca, arma, pensa. Tudo isso em frações de segundo.

Cena 3: Final da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.
Depois de carregar a França até a decisão, com atuação de gala contra o Brasil nas quartas-de-final – com direito a chapéu em Ronaldo Fenômeno – o mesmo Zidane das linhas de cima abre o placar contra a Itália, em um dos lances mais geniais das Copas.
Pênalti de cavadinha em final de Copa é pra macho, amigo!
Na prorrogação, o ogro italiano Marco Materazzi lembra as origens argelinas de Zizou, mexe com a mãe, a irmã e os brios do camisa 10 e leva uma chifrada no meio do peito.
O cartão vermelho para o francês "mata" o último Dez do futebol moderno.
O que corre, marca, arma, pensa em frações de segundo.
Em tempo: Ronaldinho Gaúcho, o 10 brasileiro na Alemanha, é e sempre foi, para este colunista, muito mais um atacante do que um armador.
A exemplo de Lionel Messi, o melhor do mundo atualmente.

Cena 4: Oitavas-de-final da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.
A Espanha martela, martela, mas não consegue chegar ao gol contra os vizinhos ibéricos portugueses.
Aos 12 minutos do segundo tempo, Iniesta recebe a bola de costas, na boca da grande área lusa, tabela com o atacante, recebe de volta, caminha com a gorduchinha e espera.
Quando nota o companheiro Xavi, dentro da área portuguesa, sair da linha de impedimento, toca para o camisa 8.
Toda a ação é muito rápida, muito mais do que as palavras podem descrever. Ao receber, de costas, Xavi dá um calcanhar preciso e genial para Davi Villa, o matador da Fúria, que, depois de uma tentativa defendida pelo goleiro Eduardo, fuzila e leva os espanhóis às quartas. Depois, todo mundo sabe o que aconteceu!
De Gérson, que não vestia a 10 em 1970 porque o Rei era "o cara" – mas sempre foi o Dez nos times pelos quais atuou (Flamengo, Botafogo, São Paulo e Fluminense) -, até Xavi e Iniesta, passando por Zidane, são mais de 40 anos de história de futebol.
Um abismo separa os lançamentos do Canhotinha de Ouro dos passes milimétricos e curtos da dupla catalã da Fúria.
E aí que está a chave da questão deste polêmico texto: os comentaristas/especialistas, quando falam do camisa 10 nas mesas redondas ou quadradas, pensam em Gérson.
O cara que pega a bola, para, pensa, fuma um cigarro e dá lançamentos de 40 metros.
Temos de pensar em Xavi e Iniesta, os Dez modernos, que correm (e como correm!), marcam, armam e pensam em frações de segundo.
Ou em Zidane, que "já se foi".
É como a diferença do analógico para o digital.
Gérson era analógico. Xavi e Iniesta são digitais.
Gérson era a carta. Os catalães são SMS.
O futebol acompanha o mundo. E o mundo hoje é acelerado, sem espaço nem tempo para pensar.
Em 1970, Gérson tinha todo o tempo/espaço para dar os maravilhosos lançamentos que dava.
Passes que ficaram na história como obras-primas, fotogramas.
No futebol de hoje, a dupla Xavi/Iniesta tem frações de segundo para colocar a força certa na bola para que esta chegue à Villa, Messi, Pedro, enfim, aos matadores à frente do dueto.
Passes que ficaram na história também como obras-primas, mas flashes.
Se você gosta de rock, a comparação fica entre John Bonham e Nick Mason.
A força e o ritmo do Led Zeppelin e a sutileza e a psicodelia do Pink Floyd.
"E o Ganso?", lembra e pergunta o leitor que chegou até aqui.
Ganso pode ser a união de Xavi e Iniesta. Um outro Zidane. Quem sabe, poderei escrever outra coluna, ressuscitando o 10.
Ah, para o papo de bar continuar, mande seu email para a Rá! e discorde, critique, xingue, malhe ou elogie este colunista (fernandofmello@yahoo.com.br).
*Fernando Figueiredo Mello é jornalista e escreveu o texto acima originalmente para o número 1 da revista RÁ!

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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